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O stage manager, ou diretor de cena, é considerado o principal responsável pela sincronia do espetáculo em todas as suas áreas

 

Por Pablo Ribera

 

Um espetáculo teatral precisa ser perfeito aos olhos do público. Não basta ter bons atores e atrizes, um grande diretor e uma história fascinante. Deve ser bem organizado, as luzes precisam estar bem direcionadas, o som tem que ser de qualidade e, no palco, é necessária uma sincronia, seja na atuação, no entra-e-sai de atores ou nos objetos que serão utilizados. E para que tudo seja realizado da forma certa, entra em cena o stage manager, profissional também chamado de diretor de palco ou diretor de cena. Tais definições, porém, não são as mais adequadas.

“Na verdade, a denominação não é bem diretor, e sim stage manager”, explica Leslie Pierce, stage manager mexicana radicada no Brasil e com grande experiência na profissão. “Este profissional é importante para coordenar todos os componentes da peça, sejam os atores e atrizes ou os diretores técnicos e artísticos”

Segundo Leslie, o stage manager deve saber de tudo um pouco. “A pessoa deve conhecer a parte técnica, deve saber da peça, da história que ela conta e saber lidar com os possíveis problemas que podem acontecer. Ele deve participar de tudo, desde o primeiro ensaio, e saber o que cada profissional faz, seja técnico de luz, técnico de áudio ou camareira”, explica ela, que vai além: “Tem que conhecer até mesmo os adereços que o ator usa para saber do que vai precisar”.

Tuto Gonçalves, stage manager há seis anos, acredita que o profissional é um elemento importante para os espetáculos. “Ele organiza o palco, verifica a quantidade de pessoas que participam e quem deve entrar ou sair, entre outras funções. É um membro essencial”.

O stage manager deve ser um profissional que saiba lidar com a organização de uma peça. Ele é necessário para que a sincronia do espetáculo não seja comprometida, tanto no palco quanto atrás dele, nos bastidores. “Deve deixar tudo no lugar certo e com a pessoa certa. É praticamente um relações públicas da peça, já que faz toda a parte de comunicação entre os profissionais”, diz Leslie.

O stage manager, como disse Leslie, deve entender um pouco de tudo. E ela cita exemplos: “Se a peruca que um ator precisa usar para a peça não encaixar em sua cabeça, o stage manager é chamado para arranjar uma solução. Também pode acontecer que a parte artística e a parte técnica do espetáculo não se entendam, não falem a mesma língua. O stage manager surge, então, como articulador. Ou seja, ele acaba por ser o cérebro da companhia, tem que ter todas as informações, saber lidar com as emoções e com todo o tipo de coisa”.

Para Tuto, até mesmo sobre montagem de palco o stage manager deve entender. “Pelo menos um pouco ele deve saber. Ele tem um papel importante, já que sabe de tudo com relação a estrutura, cenário, luzes, etc.”

Durante a peça, este profissional também é importante para o andamento do espetáculo. Segundo Leslie, ele muitas vezes é essencial e até mesmo o herói da apresentação. “O stage manager resolve qualquer tipo de situação que acontece no palco, no camarim e até mesmo na cabine de luz. Sabe quando cada ator deve entrar ou sair. Sabe onde está sua equipe. Se acontece, por exemplo, de alguma coisa deixar de funcionar, o stage manager soluciona esse problema. Ele deve ser rápido, para que ninguém se dê conta que houve um erro”, explica Leslie. “Ele é necessário para que tudo funcione bem, com 100% de qualidade. É muito importante para quando se precisa esconder um erro. Para que tudo seja lindo e flua”.

 

Arte dos mínimos detalhes

Um dos destaques do circuito teatral do ano, a peça “Rainha(s) – Duas Atrizes Em Busca de Um Coração”, da Companhia Livre de Teatro, foi muito bem recebida em todas as cidades por onde passou. Além das interpretações de Georgette Fadel e Isabel Teixeira, e da direção de Cibele Forjaz, o espetáculo contou com uma ótima direção de palco. Por trás desse trabalho está Elisete Jeremias, que opera há mais de dez anos na área. A seguir, a diretora de palco revela ao Jornal de Teatro alguns detalhes do seu trabalho:

 

Jornal de Teatro - Em que parte da construção da peça “Rainha(s)” que começou o seu trabalho de direção de palco? Você esteve presente logo no começo, nas primeiras leituras, ou entrou depois?

Elisete Jeremias – Eu estive presente desde o primeiro dia dos ensaios. Eu li o texto junto com as atrizes e presenciei as improvisações das cenas. A construção das personagens foi feita pelas próprias intérpretes, orientadas pela direção, mas eu ajudei nas soluções de cena e na busca por efeitos no palco, como o sangue cênico que escorre nas apresentações, por exemplo.

 

JT - Como começou o seu trabalho com a direção de palco?

EJ – Eu comecei nessa área com a peça “Cacilda I”, no Teatro Oficina. Isso foi no ano de 1998, mas dois anos antes eu já trabalhava como atriz naquele grupo. A partir de 2004, passei a trabalhar com Cibele Forjaz, na montagem de “Um Bonde Chamado Desejo” e, desde então, tenho trabalhado com a Companhia Livre de Teatro.

 

JT - Construir essa proposta de direção de palco em arena é mais difícil do que em palco italiano?

EJ – Eu estou acostumada a trabalhar em palco de arena, porque já comecei fazendo essa direção no Teatro Oficina, onde não há coxias, por exemplo. Os dois tipos de palco têm dinâmicas muito diferentes. Na arena, os atores precisam superar a timidez de estarem expostos a todo o momento e devem estar atentos a tudo: à iluminação, à música...

 

JT - Existem bons profissionais para trabalhar nessa área no Brasil? Qual a formação deles?

EJ – Existem ótimos diretores de palco no Brasil. Conheci bons profissionais dessa área em companhias como o Teatro da Vertigem e a Companhia de Atores. Cada um deles tem uma formação diferente e acaba aprendendo a técnica da direção de palco no dia-a-dia. No fundo, o teatro é uma atividade coletiva e todos os envolvidos na produção acabam tendo que ser um pouco de tudo, inclusive diretores de palco: não temos mais a figura do contra-regra que fica atrás das coxias, esperando o momento de agir.