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Por Danilo Braga

Theo Werneck é um artista multimídia. Não só porque trabalha com áudio, mas, sim, por que é um multiartista: ator, sonoplasta, DJ, músico, pesquisador musical.
Hoje atua no Theo Werneck Blues Trio e está em cartaz com "A Vida Que Pedi, Adeus" no Teatro Cosipa, onde é responsável pela trilha sonora inovadora: com uma só composição, a sonoplastia se dá através de texturas sonoras captadas no mundo real, ruidagens urbanas e sons verdadeiros das grandes cidades. O Jornal de Teatro subiu até a ilha de som e escutou o que Théo tem a tocar - ou melhor, a dizer.

Jornal de Teatro - Se você tivesse que explicar para alguém sobre o que se trata o seu trabalho como sonoplasta no teatro, como você o faria?
Theo Werneck - Comecei minha carreira no teatro aos 17 anos. Fui técnico, cenotécnico, assistente de cenografia, contra-regra e operei bonecos. Um dia, trabalhando como contrarregra na peça infantil "Esqueci a porta da cabeça aberta", um ator não foi avisado de uma mudança de horário e como eu sabia todos os textos fui chamado para substituí-lo. Na montagem seguinte do grupo, ganhei um personagem e passei da coxia para o palco. A música sempre caminhou lado a lado com a experiência no teatro, então, fazer a música de um espetáculo é parte natural da minha experiência.

JT - Onde você busca suas referências para a criação da trilha teatral?
TW - Em tudo. No cinema, nos shows, na televisão, nas artes plásticas, na moda, nos discos antigos (sou pesquisador de música para cinema, fiz a pesquisa musical de "Carandiru", o filme).

JT - Na peça que está em cartaz, "A vida que Pedi, Adeus", você usou recursos da vida real, gravações de sons urbanos e ruidagem para compor a trilha da montagem. Porque trazer o real como opção à uma criação artificial?
TW - A idéia é fugir do óbvio e trazer o ambiente urbano para dentro do teatro usando a trilha como textura sonora.

JT - Que tipo de equipamento você utilizou? Quanto e como isso influenciou no seu trabalho?
TW - Trabalhei com muita gente que me influenciou e me ensinou a ‘fuçar' nas coisas e obter sons do que aparecesse. Trabalhei com o André Abujamra no grupo Boi Voador, com Ulisses Cruz e também fui diretor musical. Pude, então, entender que a música não é nenhum monstro de sete cabeças, mas algo que está no cotidiano das pessoas, dentro da cabeça delas (todo mundo, ou quase todo mundo, cria uma trilha quando caminha ou quando está dentro do metrô, do ônibus...). Para as gravações usei um gravador e microfone digitais.

JT - Qual a principal diferença, em se tratando do processo criativo, na concepção de "A Vida que Pedi, Adeus" e "A Alma Boa de Setsuan"?
TW - São trabalhos completamente diferentes, na ‘Alma Boa...' usei mais a composição e criação musical no sentido de trilha sonora mesmo, com temas para cada cena. Na ‘A Vida Que Eu Pedi...' a pesquisa foi mais conceitual, no sentido de criar ambientes dentro das situações.

JT - Na coletiva de "A vida", você mencionou que só há uma composição musical na peça toda, o que se entende por "música". O que é a música para você?
TW - Aprendi com o meu irmão André Abujamra que tudo pode ser música, tudo... Até o nada é musica...

JT - Você costuma transpor elementos de outros sentidos (como a visão ou tato) para o seu trabalho? Ou você só se baseia no infinito universo dos sons?
TW - Cada trabalho é um trabalho. Quando trabalhei com o circo dos acrobáticos Fratelli tive que me ligar nos tempos coreográficos dos números do circo e, por vezes, acompanhar o movimentos dos artistas e trapezistas. É um pouco de tudo misturado.

JT - Algumas de suas primeiras discotecagens ficaram famosas no Teatro Mambembe. Você acha que o fato de um teatro abrigar, de certa forma, suas origens influencia o seu trabalho hoje?
TW - A minha experiência com teatro e performances nos anos 80/90, sem dúvida, influenciou e influencia o meu trabalho como um todo, seja tocando, cantando, atuando ou discotecando.

JT - E como ator, o que você usa dessa formação dramática para suas criações audiofônicas?
TW - Na verdade, acho que todos os atores poderiam, eu disse poderiam, aprender a desenhar, como exercício, para se colocar em cena, para entender o campo cênico. O desenho é matemática, assim como a música, e isso influencia e modifica tudo. Nós, que não somos só matemática, podemos sentir as coisas e interpretá-las.

JT - Qual é o seu som preferido? E o seu ruído?
TW - Adoro som de trovões, adoro sons inusitados e inesperados, bips e sons eletrônicos, batuque em banco de metrô ou de ônibus, batuques em latas de lixo. Guitarra distorcida. Tudo.

JT - Você gosta de fazer barulho (em todo e qualquer sentido)?
TW - Amo! Fazer barulho ou fazer um som é premissa básica para ser ouvido ou entendido no universo, seja o choro do nenê ou o violino do vizinho aprendendo a tocar, o seu filho aprendendo a assobiar, seu sobrinho tocando heavy metal, tudo é música.