0
0
0
s2smodern
 Da RedaçãoPor Rubens Barizon

Um melodrama com comédia envolvendo relacionamento afetivo passeia à beira do limite entre a seriedade e a acidez do humor. “Obsessão” de Carla Faour conta com elementos construídos ao longo de suas postagens semanais no Drama Diário com o intuito de seguir os moldes dos folhetins, com linguagem poética e a reviravolta da narrativa.

A ideia de escrever o texto que trava a digladiação de Lívia e Marina para ficar com o anti-herói Marcelo, veio de um vídeo que caiu na internet, “Barracos de Sorocaba”. A impressão pode ser de uma história conhecida, contudo, a dramaturgia da autora Carla Faour aborda a temática com personagens debochados, tango de cantor português (Roberto Leão) em pegada passional, cenário em tom vermelho remetendo a paixão e linearidade subvertida.

O rompimento da amizade simbiótica das personagens começa quando Lívia confidencia as virtudes do seu namorado para a amiga Marina que realmente se apaixona por Marcelo, personagem que sofre tiques nervosos e não dá conta da tensão criada pela situação. Desajustado com a saia justa, o rapaz imprime um sorriso como resposta avulsa para as duas e acaba engravidando Marina com quem logo se casa. No futuro a confusão continua, Lívia retoma o garanhão desconjuntado e Marina, interpretada pela a autora, fica com o affair do momento da ex-amiga.

Com cenas curtas e intensas a plateia é marcada pela agitação que “Obsessão” causa. Os atores tornam-se agentes/espectadores e já percebiam a diversão que a peça causaria pelos impactos sentidos durante os ensaios, que segundo Carla eram muito divertidos. A peça possui 42 páginas e passou por tratamento e a descrição das cenas. A direção é assinada por Henrique Tavares que também concorre ao Prêmio Shell de melhor direção por “Obsessão”, parceiro profissional de longa data de Carla, que estudou e criou uma companhia teatral junto com Henrique.

Admiradora do trabalho de Janete Clair e Nelson Rodrigues, Carla destacou o bom momento da dramaturgia carioca nos últimos anos e constatou que os novos atores já apostam na geração atual de autores e enxerga nos investidores de teatro certa desconfiança com os textos inéditos por causa da experimentação das adaptações consagradas.

Sobre a premiação a autora frisou a visibilidade que o vencedor de um prêmio tem e ainda deixou clara a vontade de continuar em cartaz com “Obsessão” e suas outras peças: “Seria capaz de estar no palco com mais de um espetáculo ao mesmo tempo”, disse energeticamente a autora que também atua nos textos que escreve e admitiu não pensar em um personagem específico para ela durante o processo de criação textual.

Carla Faour vencedora do último prêmio FITA concorre ao 25º Prêmio Shell de melhor autor por “Obsessão”, com Pedro Kosovski por “Cara de Cavalo”, Maurício Arruda e Paulo Moraes por “Marca de água” e Julia Spadaccini por “Quebra-Ossos”.