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Por Carlos Gabriel Alves

O clima entre a ELT (Escola Livre de Teatro), criada há 19 anos e reconhecida nacionalmente por seu sistema de gestão democrático, e a secretaria de cultura da cidade paulista de Santo André não é de extrema leveza. Motivo? A demissão do professor e coordenador Edgar Castro, no último dia 8 de setembro, e a entrada, em seu lugar, de Eliana Gonçalves – indicada pela prefeitura local – como coordenadora administrativa da escola. A iniciativa desagradou a maioria dos alunos e mestres da ELT e resultou em protestos dos representantes da classe artística paulistana. Eles têm reivindicado, junto aos poderes executivo e legislativo da cidade, a volta do coordenador, alegando que a atitude é necessária para a preservação do projeto pedagógico da instituição.
Insatisfeitos, os artistas ligados à instituição entregaram ao prefeito Aidan Ravin e ao secretário de cultura, Edson Salvo Melo, uma carta com várias reivindicações do grupo, entre elas a readmissão do professor Edgar Castro e a demissão de Eliana. “Solicitamos ao Executivo a reavaliação da demissão do coordenador e mestre Edgar Castro, que ajuda a construir a História da ELT há 11 anos de forma íntegra, inovadora e constante. Solicitamos, também, a transferência da funcionária Eliana Gonçalves para outro setor da municipalidade a que ela possa emprestar o seu conhecimento profissional de maneira efetivamente útil, segundo o seu perfil”, dizia um trecho do documento.
Em resposta, a Secretaria de Cultura de Santo André encaminhou outra carta à escola, assinada pelo secretário Salvo Melo, sobre as reivindicações dos membros da ELT. E negou-se a demitir a atual coordenadora: “Entendemos que determinadas posturas podem ser revistas, desde que pautadas sempre pelo mecanismo que mais é prezado pela comunidade em sua carta: o diálogo. Atendemos e atenderemos à Comunidade ELT em sua reivindicação principal: a manutenção do projeto e da Escola Livre de Teatro, não abrindo mão, contudo, da prerrogativa administrativa e legal de indicarmos sua coordenação.”
Manifestações
No dia 11 de setembro, cerca de 300 artistas participaram de uma passeata, como forma de protesto, que saiu da Rua Rui Barbosa com destino ao Paço Municipal. O objetivo era entregar a carta para a prefeitura e um abaixo-assinado ao secretário Salvo Melo. Fizeram parte do ato, além de dezenas de alunos e mestres da escola, diversas companhias e grupos teatrais, bem como as atrizes Maria Alice Vergueiro e Leona Cavali, o ator Antonio Petrin e as diretoras Georgete Fadel e Cibele Forjaz.
Como parte das manifestações, a escola suspendeu atividades durante uma semana – entre os dias 21 e 25 de setembro – e organizou a “Semana ELT em alerta”. O movimento abriu as portas da escola para diversos grupos teatrais, de dança e artistas se apresentarem e promoverem debates.
No último dia 8, representantes da escola foram à Câmara Municipal de Santo André e discursaram nas tribunas livres, com o objetivo de intensificar o diálogo entre a ELT e os membros do poder executivo e legislativo da cidade. Na ocasião, os membros da escola e um grupo de vereadores afinaram os discursos, com o intuito de chegar a um acordo. A comunidade aceitou a permanência de Eliana Gonçalves no cargo, desde que haja uma adequação na atitude da coordenadora em prol do projeto.
O professor Edgar Castro ressaltou que o importante é o projeto da Escola Livre de teatro, não se tratando de uma questão pessoal. “Somos tudo menos intransigentes. Queremos o bem da escola e isso significa a expansão do projeto original, não sua retração, como estava acontecendo.”

Expectativas
Após mais de um mês de debates e discussões a situação ainda não está resolvida. Em seu blog oficial (www.mundolivre-sa.blogspot.com), a ELT divulgou que recebeu, de forma não oficial, a autorização para reintegrar o professor Edgar Castro à escola. “Após este mês de conversas com o Executivo e com o Legislativo, a Escola Livre de Teatro tem a resposta de que seu Mestre Edgar Castro está de volta ao corpo docente e que o novo coordenador será escolhido pela comunidade ELT. Só não se tem a oficialização da Secretaria de Cultura, Esportes e Lazer. A Comunidade pede esta oficialização.”
A secretaria ainda não se manifestou sobre o retorno de Castro, mas os membros da escola estão otimistas em relação a um desfecho positivo em breve. “O impasse ainda continua, mas, aparentemente, estamos caminhando para um diálogo responsável”, mencionou um dos avisos deixados no blog da escola. Castro, que já retomou as atividades, revela que a escola tem passado por um processo conturbado, porém, marcante. “Apesar do período de incerteza por qual passamos, esse período tem sido muito rico. Ainda estamos refletindo sobre o que significa essa experiência política pela qual estamos passando, sem falar dos diversos apoios que recebemos e visibilidade que alcançamos defendendo nosso projeto pedagógico”.
A demora na oficialização do acordo deve atrasar o cronograma de aulas, que passará por uma nova eleição de coordenador pedagógico ainda este ano. Castro afirmou que o mês de janeiro deve ser usado para repor as aulas perdidas durante o período de paralisação.