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Adriano Fanti - Londres

Aí você chegou naquela audição (não e jurídica. É do termo inglês “audition”, para teste) para uma peça onde lhe pedem duas canções contrastantes, um pequeno monólogo e que traga consigo roupas confortáveis para uma sessão de movimento. Você chega ao endereço apontado e vê um mar de cabeças à frente apanhando um número, o qual pedem para que fixe em lugar visível no seu corpo. Bem vindo à audição: você é um número! E reze para que seja um pequeno ou prepare-se para esperar por horas. Identificou-se?
A espera finalmente chegou ao fim. Você adentra a sala e percebe uma banca de pessoas que estão ali para lhe julgar (antes fosse jurídica!). Você brevemente sorri, eles sorriem de volta, e logo nota uma outra pessoa ao canto: o pianista (soa como um bom título para filme). Ele sorri (se tiver sorte),  lhe pede sua partitura e você: “Hein? Não serve à capela?”
Deve estar pensando: “Ah, vai! Ninguém é tão desavisado! Bom, lembro que nas audições para “Grease Brasil”, três irmãs cantoras chegaram preparadas para cantar à capela, a escolha: “Amor I Love You”, da Marisa Monte – detalhe, em trio!
Após o canto, interpretação e dança, passou para a segunda fase (geralmente em outro dia) e ali mais adiante, na terceira fase, pediram que preparasse uma canção do espetáculo como o personagem. Interrompem e pedem que cante menos (soe mais falado como na técnica usada para teatro musical) e conte mais a história. Já na parte de dança, quando já esta bem sem fôlego, após haver aprendido a coreografia, pedem que agora cante ao executá-la.
Quem é “macaco velho” conhece bem essa história, mas a moral da história é: alguém que estudou canto, atuação e dança separadamente, não necessariamente está apto a fazer teatro musical. Como professor formado em teatro musical eu diria que a palavra chave é integração. A ponte entre as três modalidades, que só um curso especializado pode oferecer.
Infelizmente, no Brasil, ainda não é possível encontrar um curso universitário ou profissionalizante no assunto, apesar do crescimento notório do setor nos últimos anos. O que há, todavia, é a parceria de figurinhas carimbadas, colegas meus, que começaram a trabalhar em teatro musical desde o comecinho dele no Brasil e, hoje, juntam-se para oferecer cursos ocasionais que trazem muito conhecimento para os aspirantes.
O “performer” brasileiro tem sido muito autodidata, aprendido na prática. Mas este é um privilégio para os poucos que conseguem o trabalho. Este era o meu caso anos atrás, quando fazia musicais no Brasil. Mas, ainda assim, senti a necessidade de me especializar no assunto. O que me fez arrumar minhas malas e me mandar para Londres em busca desta formação que eles chamam de triple threat (ameaça tripla); um termo que acho um pouco boçal, mas é como se referem.
Há centenas de cursos em teatro musical em Londres, mas é preciso fazer a sua pesquisa, pois também tem muita porcaria. Os cursos de maior renome, sendo os das universidades que fazem parte da CDS (conselho de escolas de drama), tem uma concorrência sempre muito acirrada – centenas e centenas de candidatos, todos os anos, se aplicam para os cursos no topo do “rank” do CDS. E são poucas as vagas. O processo de admissão é como o de uma audição para musical; algumas fases e um workshop na última.
Algo interessante é que os responsáveis pela seleção nunca aprovam ninguém que esteja em estágio inicial. Isto devido a estes cursos terem altíssima reputação em providenciar “performers” de alto padrão para o West End todos os anos. Por isso, os escolhidos são sempre candidatos que previamente já estudaram todas as modalidades, mas que precisam de uma lapidada ou integração.
A verdade é que muitos já estão até prontos para o mercado antes mesmo de começar o curso. No entanto, não se trabalha profissionalmente sem formação acadêmica, pois, sem ela, não se consegue o tão esperado agente (aqui também e necessário ser agenciado para trabalho em teatro), que é a meta de todos ao final dos árduos anos de treinamento. É através de um “showcase”, que você mostra para os agentes e produtores “tops” de Londres o que você é capaz de fazer e torce para que um deles lhe ofereça representação. É chegada a hora de “audicionar” e por em prática todo aquele preparo físico, horas e horas despendidas em voz e atuação, e técnica de audição. Mas a competição é feroz não só em números, mas também na qualidade.
Para os leitores que me pediram dicas no assunto, espero que a visão não romantizada de quem presencia a realidade nua e crua aqui não tenha sido muito desanimadora. Vale a pena também mencionar que se sua nacionalidade não é inglesa, as dificuldades são em dobro. Preconceito rola solto e sem um inglês perfeito e sem sotaque, as chances são praticamente nulas. Já para os que são exclusivamente dançarinos (as), a barreira da língua é muito suavizada. No entanto, a sensação de ter superado estas e outras barreiras me faz dizer: se é o que queres, vá de cabeça. Vale a pena!