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Cada vez mais fala-se em stand up na Argentina. O gênero conquista com a arma mais poderosa que o ser humano conheceu: o riso

Por Delfina Krüsemann – Revista Mutis x El Foro

Ao entrar no mundo do stand up, é inevitável se questionar por seu gênesis. Que mente perversa pôde conceber um espetáculo no qual um pobre diabo conta suas misérias com o objetivo de que o público dê risada dele? Ou, além disso, que tipo de masoquista pôde se identificar artisticamente com a ideia de se expor à luz de uma lâmpada mortiça, em um cenário de uma nudez quase obscena, com a única companhia de um microfone de pé e um copo com água? No entanto, grandes figuras como Richar Pryor, nos anos 1970, e Jerry Seinfeld, nos anos 1990, fizeram do gênero uma verdadeira arte. Humor em estado puro, cronometrado para fazer estalar a gargalhada a cada 20 segundos.
É impossível falar do stand up comedy sem mencionar Lenny Bruce, o norte-americano que, nos anos 1950, rompeu com todas as regras de etiqueta humorística. Sua visão crítica e ácida da moral, da política, das drogas, das diferenças raciais e de outras questões sensíveis para a época produziu tanto fanatismo quanto escândalo. Seu impacto foi tão grande que até foi processado por obscenidade pela Corte Suprema de Nova Iorque e reformulou a figura do cômico: o transformou em um artista mais livre e audaz, que combinava o confessional com o sociopolítico. É que falava a uma nova geração que entendia seus códigos: as crianças e os adolescentes da contracultura. O “número engraçado” deixou de ser prelúdio de outro espetáculo e se transformou em um show em si mesmo. Para 1970, os principais referentes do “humor em pé” transbordaram teatros e até estádios esportivos.
O gênero contagiou de forma fulminante países como o Canadá, o Reino Unido e a Austrália, onde, hoje, é um pilar de sua oferta cultural, com clubes de comédias e festivais internacionais que expõem o melhor do stand up, como o Fringe, em Edimburgo. Mas, na Argentina, o movimento ocorreu apenas no final da década de 1990: em pleno apocalipse nacional, Diego Wainstein e Alejandro Angelini ditaram as primeiras oficinas. “Nos encontramos com um grande número de pessoas que, por gim, poderiam satisfazer uma necessidade latente. Não inventamos nada novo: trata-se de um homem sozinho no cenário fazendo com que as pessoas riam, condensando aprendizagens de atores com os humorísticos”, lembra Wainstein.
Em uma primeira instância, o stand up se assemelha muito ao monólogo teatral, principalmente porque torna seu espaço de representação e é unipessoal. No entanto, até aí chegam as semelhanças. Assim o explica Fernando Quintans, cômico e produtor de Seleção Stand Up: “Um monólogo é representado por um ator que faz um personagem e diz palavras que correspondem quase sempre ao roteiro de um auto que não é ele. Em contrapartida, nós ficamos no cenário, em pé, sendo nós mesmos e representamos um roteiro original, próprio”. Esta característica intimista e artesanal é o que mais seduziu à Dalia Gutmann: “Quando escrevo, cada vez mais procuro transmitir o que vivo e penso de verdade, não me preocupo tanto pela piada, e sim em poder me abrir e contar como me afetam as coisas. É terapêutico poder rir de si mesmo e que os outros riam com você”.
Esse é o segredo que entesouram os bons cômicos: tudo o que opaca sua vida, brilha no palco. Mas não há um forte componente loser nas interpretações? Ou o público não ri ao ver refletido seu próprio patetismo, ao mesmo tempo em que se reconforta com a gargalhada das pessoas, porque se dá conta de que “a todo mundo acontece o mesmo”? “Definitivamente, há temas que se repetem porque são os que interessam a todos os seres humanos, como podem ser o sexo, a solidão, os defeitos físicos ou o transporte público, mas o interessante é ver como cada cômico pode falar do mesmo assunto de maneira totalmente diferente”, observa Belén Caccia, atriz e professora de teatro de humor.
Para o comediante Guillermo Selci, um dos aspectos mais difíceis é que o ato pareça fácil, “espontâneo, sem enfeites: como se o que se conte é o que se está pensando ou vivendo nesse instante”. Não há tempo de deter em descrições ou explorar emoções. A dinâmica sagrada é: informação, remate, informação, remate. E, nessa tirania da risada, sua presença é bálsamo, mas sua ausência é maldição.
Não se trata de inventar nada novo, mas de ir além da casca de banana e as piadas de loiras. “Importa precisar se é a versão moderna do bobo da corte medieval, uma revanche dos nerds que fizeram do seu ostracismo uma profissão ou só um modo cool de denominar algo que se faz há décadas. Como em todas as artes, há expoentes excelentes e outros nem tanto, mas o que é inegável é que, na cidade de Buenos Aires, cada vez mais o stand up ganha espaço e adeptos. Entre tanta queda de bolsa e alta de dólar, é uma proposta mais que tentadora.