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Por Adair de Oliveira, redação Brasília 

“Nos conhecemos no início da carreira. Nossas mães eram amigas de trocar confidências sobre os filhos. Em uma dessas conversas, elas falaram a respeito da dificuldade da carreira escolhida pelos rebentos – teatro –, por ser uma profissão mais trabalhosa. Durante esse papo, a mãe do Plínio diz: “Pior é meu filho, que foi para o circo”. Este é um dos muitos causos que recheiam o universo do gênio Plínio Marcos, contado pelo amigo, ator e atual presidente da Funarte (Fundação Nacional de Artes), Sérgio Mamberti. No dia 19 de novembro, completam-se dez anos da morte de um dos mais importantes dramaturgos brasileiros, um dos poucos que soube retratar e trazer para o palco a vulnerabilidade da condição humana e as fraquezas de uma sociedade.

A trajetória começa com seu nascimento, na cidade de Santos (SP), no dia 29 de setembro de 1935. Os primeiros passos aconteceram no circo, como palhaço Frajola, mas Plínio ainda teve outras profissões – funileiro, vendedor de livros em uma banca espírita e tarólogo. Além de estivador no cais do porto de Santos e cjogador de futebol no time juvenil da Portuguesa Santista, no Jabaquara. Todos diziam que era um excelente jogador. Mas, em compensação, na escola – como ele mesmo dizia – “quando pequeno, era tido como débil mental. Não conseguia aprender. Meu poder de concentração era nenhum”. Isso, segundo Plínio, era devido aos métodos escolares da época.

Em 1958, o segundo ato da vida do escritor e dramaturgo entrou em cena. “Houve um caso, em Santos, que me chocou profundamente: um garoto foi preso por uma besteira e, na cadeia, currado. Dois dias depois de sair de lá, matou quatro dos caras que estavam com ele na cela”, relatou o autor, na época do ocorrido. Deste acontecimento nasceu “Barrela”, escrita por Plínio aos 22 anos de idade. A peça foi mostrada para Pagu (Patrícia Galvão), que achou os diálogos tão poderosos quanto o texto de Nelson Rodrigues. Em seguida, Pagu levou o texto para Pascoal Carlos Magno – responsável pelo setor cultural e universitário da Presidência da República no governo de Juscelino Kubitschek –, que realizava o Festival Nacional de Teatro de Estudante, em Santos, e, como relembrou Plínio em relatos publicados, “ele fez um puta escarcéu, descobriu um gênio.”

Os ensaios começaram no início de 1959 e logo o espetáculo foi encaminhado para a censura federal, que proibiu a apresentação. Então, Pagu entrou em contato com Pascoal, que faz a polícia reconsiderar a proibição da peça. “Barrela” foi apresentada no dia 1º de novembro de 1959, no palco do Centro Português de Santos. Mesmo com tamanho sucesso, a peça foi censurada na apresentação e permaneceu proibida por mais 21 anos. Plínio, então, escreveu seu segundo trabalho: “Os Fantoches ou Chapéu sobre Paralelepípedo para Alguém Chutar” – reescrita depois como “Jornada de um Imbecil até o Entendimento”. Pagu, na época, escrevia crítica teatral para o jornal “A Tribuna de Santos” e colocou uma foto de Plínio com gravata borboleta e a seguinte manchete: “Esse analfabeto esperava outro milagre de circo”. O trabalho tinha sido um fiasco.

 

Novos Caminhos

A vinda para São Paulo aconteceu em 1960. Para garantir o sustento, Plínio era uma espécie de faz tudo. Trabalhou como camelô, ator e técnico da extinta TV Tupi, quando estourou nacionalmente, em 1966, com “Dois Perdidos Numa Noite Suja” – censurada logo ao chegar no departamento. Com “Navalha na Carne” (1967) ocorreu o mesmo e a única saída encontrada pelo grupo foram as apresentações na casa de Cacilda Becker, que cedeu o espaço para o espetáculo. A liberação do texto virou causa nacional e contou com o apoio dos principais nomes do meio artístico e cultural.

No Rio de Janeiro, “Navalha na Carne” foi apresentada, às portas fechadas, no Teatro Opinião. O exército cercou o teatro e proibiu a apresentação. A atriz Tônia Carrero comprou a briga e levou o espetáculo para uma casa vazia, no morro de Santa Tereza. Para despistar, Plínio deu entrevistas aos jornalistas, enquanto o povo recebia senhas com o endereço da casa da Tônia, que ficou lotada e tinha público para outro espetáculo.
“O Abajur Lilás” (1969) foi outro texto proibido. Tinha Paulo Goulart na produção e Nicete Bruno e Walderez de Barros no elenco. Após uma consulta informal à censura, veio a resposta negativa. Os ensaios foram interrompidos. O texto estaria liberado para montagem somente em 1975, o que não aconteceu. O advogado Iberê Bandeira de Melo entrou com recurso contra a proibição. O próprio Ministro da Justiça, Armando Falcão – governo Geisel – reiterou a proibição da peça, sob a alegação de que ela atentava contra a moral e os bons costumes. A luta deu-se de instância em instância, até chegar ao STF (Supremo Tribunal Federal), em Brasília. A peça teve um único voto favorável do então juiz Dr. Jarbas Nobre.

Em 1979, um grupo de atores juntou-se clandestinamente e formou um grupo chamado O Bando para montar “Barrela”, que completava aniversário de 20 anos de censura. A peça estreou em dezembro, no porão do TBC (Teatro Brasileiro de Comédia). Os ingressos eram vendidos pelo próprio elenco que, nas ruas, os ofereciam para as pessoas. Todas as sessões ficaram lotadas e o espetáculo era realizado às sextas-feiras, à meia-noite. As peças “Barrela” e “O Abajur Lilás”, em 1980, foram liberadas pela Censura Federal. O Bando transfere-se para o Teatro Taib e as peças “Dois Perdidos Numa Noite Suja”, “Oração para um Pé-de-Chinelo” e “Jesus-Homem” são montadas.

 

A Crônica e o Samba

Além de dramaturgo e escritor, Plínio Marcos construiu uma carreira sólida no jornalismo e passou por importantes redações de jornais e revistas do país. A carreira como cronista aconteceu por volta de 1968, no extinto jornal Última Hora, com uma coluna que circulava aos domingos. Umas das marcas ou peculiaridades da crônica de Plínio era o caráter memorialista de sua narrativa. Mesmo escrevendo em jornais e revistas de circulação nacional, ele nunca deixou de contar as histórias da sua gente. Outro elemento percebido no texto do cronista era uso da gíria e a temática marginal.

No livro “A Crônica dos que não Têm Voz”, os autores Fred Maia, Javier Contreras e Vinícius Pinheiro explicam que o cronista Plínio Marcos conseguiu desenvolver uma literatura carregada de conceitos, elementos e signos que estão na cultura popular, que é dinâmica e diversa no Brasil. O que os mantêm costurados como uma colcha de retalhos é a língua, o idioma, que é o mesmo do Oiapoque ao Chuí. Os autores fazem referência às possibilidades da língua portuguesa que remete a vários “Brasis”. Plínio vai se debruçar sobre a linguagem de sua gente, principalmente a gente do cais do porto de Santos e do mundo que o cerca. O elenco de personagens é riquíssimo, como são riquíssimas suas falas e expressões.

Segundo Fred Maia, as crônicas de Plínio Marcos apontavam não necessariamente para um embate contra o governo vigente no País na época, mas ele apresentava uma realidade brasileira que era desagradável para os generais. “O Plínio, quando falava dessas mazelas, desagradava, porque pintavam um Brasil lindo e maravilhoso, quando, na verdade, nós tínhamos todos os tipos de desagregação – um êxodo rural violento e uma ocupação do campo desordenada que deu no que deu”, conta.

Outra paixão do dramaturgo foi o samba. Plínio foi um dos fundadores da pioneira Banda Badalha (1972), a primeira da cidade de São Paulo – que contou com as atrizes Walderez de Barros e Etty Fraser na função de porta-bandeiras e o ator Tony Ramos como mestre sala em uma apresentação. Após algumas divergências, o grupo acabou. Em seguida, foi formada a Banda Redonda, que existe até hoje.

Segundo entrevista concedida no livro “A Crônica dos que não Têm Voz”, o jornalista e incentivador cultural Carlo Pinta destaca que o samba de São Paulo começou a evoluir no Bar Redondo, com Plínio e Geraldo Filme. Ali, começou a se estruturar o samba de São Paulo. Plínio não tem importância apenas como autor. Ele é mais completo. Sua importância é como homem da cultura popular brasileira.

Em 1970, Plínio escreveu e dirigiu “Balbina de Iansã”. Foram gravadas músicas de compositores tradicionais do samba paulista como Talismã, Sílvio Modesto e Jangada. Em 1974, lançou o disco “Plínio Marcos em Prosa e Samba, Nas Quebradas do Mundaréu”, com participação dos sambistas Geraldo Filme, Zeca da Casa Verde e Toniquinho Batuqueiro. O disco foi resultado de um show realizado com tais músicos. Neste mesmo período, havia programas em rádios e na TV Tupi nos quais se divulgava o trabalho dos sambistas paulistas. Durante vários anos, Plínio fez a cobertura do desfile das Escolas de Samba de São Paulo para jornal, rádio e televisão.

Causos e Importância

Segundo Oswaldo Mendes, ator e autor da biografia “Bendito Maldito – Uma Biografia de Plínio Marcos”, o surgimento dele foi fundamental para o teatro brasileiro não somente na construção de um tipo de linguagem, mas na colocação das personagens que, até então, não tinham direito de estar no palco. “Isso provocou um espanto porque, até então, os ‘atores’ que eram representados eram os trabalhadores politizados de Guarnieri e Vianinha”, explica.

De acordo com Sergio Mamberti, Plínio era um homem desprendido. “Um ator de ‘Navalha na Carne’ teve um acidente grave. O Plínio, mesmo com os problemas financeiros que passava, simplesmente doou todo o dinheiro da bilheteria da peça para o tratamento desse ator,” relembra. Mamberti ressalta que no espetáculo o autor apresenta ao público, em uma hora e quinze minutos, um clima trágico de um épico da tragédia grega. “Além de ter sido um grande dramaturgo, ele inovou no tempo, nas formas de diálogos e no estilo”, afirma.

Outro caso lembrado por Oswaldo Mendes foi a visita feita pelo político Mário Covas. A visita ocorreu em 1999, quando Plínio estava internado: “Oi, Covas, você pretende se candidatar para presidente. (Covas) ‘Acho que não, tenho que fazer uma cirurgia’. (Plínio) ‘Porra, então morre logo.” Esse diálogo ilustra bastante o que o Plínio era. Se você não tem objetivo na vida porque viver. Você tem que ter motivos para viver.

Para o coordenador do curso de artes cênicas da Faculdade Dulcina de Moraes, Francis Wilker, a obra do Plínio Marcos mostra como nos relacionamos uns com os outros (há sempre uma relação de poder, de exploração). “A obra dele é uma declaração de amor ao ser humano porque ele é capaz de pegar aquelas pessoas que a sociedade finge não ver e chamar atenção àquilo como, independentemente do cargo ou da cor, somos seres humanos, somos feitos da mesma matéria”, diz.