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Por Fernando Pratti, São Paulo

 

Às vésperas de completar 50 anos de atividades do Circolo Italiano (mais conhecido por Edifício Itália), o Teatro Itália, no cruzamento das avenidas Ipiranga e São Luís, está em busca de um patrocinador para manter suas atividades com a qualidade que idealizaram seus atuais administradores e tradição de um espaço que já figurou entre os mais nobres da capital paulista.

 

A sala Paulo Borges, que funciona no térreo do prédio onde está o Terraço Itália, foi completamente revitalizada e resgatou todo seu estilo. Depois de mais de três décadas administrado pelo Governo de São Paulo, como o Teatro da Dança, esteve prestes a ser desativado. O trio Erlon Bispo, Darihel Souza e Cleiton Domingos resolveu impedir que a cidade perdesse um espaço tão importante a dramaturgia paulistana.

Erlon Bispo lembra que a tarefa foi árdua no começo, o produtor baiano afirma que o trabalho teve que começar do zero, pois o local se encontrava bastante deteriorado. “Eu não tinha grana nenhuma, mas sentei, fiz um projeto e entreguei para o pessoal do Circolo Italiano”, fala Bispo. “Nós recebemos o espaço em junho e tínhamos um mês para fazê-lo funcionar. Quando o Estado saiu, eles levaram tudo e o ex-secretário de cultura, Andrea Matarazzo, prejudicou muito porque disse que o espaço estava acabado, oferecendo riscos. Mesmo com apenas R$ 12 no banco, eu trouxe meus amigos da Bahia com quem eu já havia trabalhado e então fizemos a reforma.”, o baiano completa que seus amigos vieram de caminhão.

 

Logo na reestreia, o maior sucesso da recente história do teatro acontece, a peça do João Falcão “Eu Te Amo Mesmo Assim” foi um estreia incrível, que contou com a participação de uma banda e dois atores (Laila Garin e Osvaldo Mil) no palco, falando sobre amor. Isso inspirou o teatro a ficar nessa atmosfera. “A gente não tinha dinheiro e fomos fazendo. Tem gente que não tinha como ajudar, mas trazia lanche”, revela o administrador, que no início da trajetória conseguiu levantar R$ 80 mil com amigos e voluntários. “Surpreendentemente, eu percebi que o teatro era muito querido na cidade. Eu tinha três peças minhas aprovadas com a lei de incentivos, isso assegurou o teatro no começo, sem depender da cidade. Foi um primeiro ano muito difícil”, recorda.

 

Para a segunda temporada, Bispo conta sobre o projeto de patrocínio junto ao laboratórios Aché de R$ 240 mil. “Em dezembro, iniciamos uma nova reforma que durou um mês. Fizemos as portas, refizemos o tratamento acústico, trocamos os carpetes, reformamos todas as 276 cadeiras. Mais uma vez, contamos com a ajuda de voluntários, não precisando assim ir a bancos”. O produtor divulgou que cerca de um ano e meio após a reinauguração, já passaram mais de 55 mil pessoas pelo espaço. Um dos segredos do sucesso para o produtor é a administração enxuta. Hoje, são os três amigos que se dividem em praticamente todas as tarefas, desde a recepção até cuidar da boa aparência da casa, contando apenas com uma moça que auxilia na limpeza. “É extremamente cansativo porque dividimos todas as tarefas. O Darihel (Souza) cuida da parte técnica e o Cleiton (Domingos) cuida do palco e da luz. Então, conseguimos até agora uma administração sem funcionários”, explica Erlon.

 

Outro ponto que ajudou bastante no ressurgimento do teatro foi a chegada da “Terça Insana”, em 2012. “Foi uma grata surpresa quando a Grace Gianoukas veio nos procurar”. Ela estava cansada de se apresentar em bares e queria levar seu espetáculo para um teatro menor no Centro e isso ajudou na popularização do espaço.

 

A busca para manter a qualidade dos espetáculos, sem recorrer às stand-up, depende agora da chegada de um patrocinador. “Somos um dos poucos teatros 100% particulares de São Paulo e precisamos de R$ 30 mil todos os meses para o aluguel do espaço”, fala o administrador, citando que a maioria dos teatros paulistanos hoje está vinculada a outras instituições, como faculdades ou hotéis. “Hoje, existem dois caminhos. Ou você tem um patrocínio, ou você acaba fazendo dez sessões por semana, o que eu acho extremamente perigoso, porque ninguém consegue trabalhar. Nem sempre, as peças que dão muita audiência são necessariamente de qualidade. Então, é uma luta diária”, analisa o produtor.

 

Bispo acredita que a atual lei de incentivos do governo Lula auxilia na produção de espetáculos e deveria também ser ampliada. Segundo ele, atualmente se produz muitas coisas de qualidade por pouco tempo em cartaz. “Nunca se teve tanto dinheiro para teatro. Existem alguns fenômenos, mas uma peça, demora para se tornar conhecida. Eu fico muito triste hoje porque vem uma peça muito boa e eles não conseguem se manter. Aí, como não temos patrocínio, você precisa do dinheiro de outra produção que está por vir, que muitas vezes é uma peça ruim”, disse.

 

Erlon afirma que as grandes produções, nas quais se incluem os musicais, têm uma concorrência desleal com as peças que ele classifica como Off Broadway. “A gente não pode chegar no balcão de anúncios de um grande jornal e pagar o mesmo que o Teatro Renault paga. Às vezes, é até pior, porque eles anunciam bastante. A lei de incentivos dedica 20% para divulgação de uma peça, mas 20% de R$ 200 mil é uma coisa e 20% de R$ 11 milhões é outra. A concorrência é desleal com os grandes musicais, que são mais caros, e é por isso que ninguém briga para acabar a Lei Rouanet porque é ela que mantém os veículos de comunicação”, lamenta. “Mesmo assim, houve um aumento de verbas com os editais, que não podemos negar”, finaliza.