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Por Paloma Jacobina

A figura do produtor cultural é cada vez mais importante na dinâmica contemporânea da indústria cultural brasileira. Sem reserva de mercado e forçados a uma mudança estratégica de qualificação para se manter na profissão, esses trabalhadores têm buscado a formação para se estabelecer. Prova disso é que as 35 vagas para o curso de especialização em gestão cultural do Observatório Itaú Cultural e da Cátedra Unesco em Gestão Cultural, da Universidade de Girona, na Espanha, já recebeu mais de 10 mil pedidos de inscrição. Gratuito, o curso será realizado entre setembro de 2009 e julho de 2010 e aceita candidatos até o próximo dia 31 (mais informações no site www.itaucultural.org.br).
Com módulos presenciais e virtuais, o curso é voltado para graduados em ciências humanas e para profissionais com nível superior de qualquer área, mas com experiência em instituições culturais como museus, centros de cultura, secretarias, ministérios e institutos culturais. A grande procura por esses cursos é inédita e pode ser resultado de uma deficiência quanto ao número de instituições que formam os produtores em todo o País. No entanto, ela também reflete outro aspecto do quadro profissional da categoria: a necessidade de formação.
Na sociedade do século XXI, a atividade, que foi por muitos anos exercida por profissionais autodidatas ou pessoas bem relacionadas do circuito, atualmente busca produtores capazes de trabalhar a identidade cultural dos projetos de forma mais contundente. “Hoje em dia é preciso ter percepção da cultura para trabalhar projetos. Por isso, o profissional que passa pela academia está preparado para refletir o fazer cultural de forma correta”, afirma a mestra em políticas públicas de cultura e doutoranda em cooperação internacional em cultura Danielle Canedo.
Canedo foi aluna do curso de graduação em Produção Cultural da UFBA (Universidade Federal da Bahia), uma das três únicas a oferecer o curso em todo o País. Segundo ela, os projetos desenvolvidos por produtores culturais que passaram pela universidade têm maior preocupação com identidade cultural. “A universidade dá capacidade de desenvolver projetos com maior embasamento. Ela passa o contato inicial com as discussões que envolvem a cultura e que devem existir em qualquer produção cultural”, revela.
Mas esse novo momento da produção cultural não aconteceu de uma hora para a outra. As mudanças no mercado aconteceram em paralelo a uma série de transformações no comportamento da própria sociedade brasileira: entre elas a criação do Ministério da Cultura, em 1985; e da Lei Sarney, em 1986; seguido pela votação da Lei Federal de Incentivo à Cultura, conhecida também por Lei Rouanet, em 1991.
Naquela época, uma grande diversidade profissional já gravitava em torno da função do produtor cultural. E foi em meio a estas transformações que a UFF (Universidade Federal Fluminense) criou, em 1995, seu curso de produção cultural, seguida pela UFBA, que lançou o mesmo curso, ligado à Faculdade de Comunicação. Surgiam, a partir daí, os cursos de especialização e pós-graduação voltados para a preparação dos produtores culturais. No Nível técnico, existe a Escola Técnica Estadual Adolpho Bloch, no Rio de Janeiro, que foi a primeira escola pública a oferecer curso técnico de comunicação na América Latina e que fornece o Curso de Produção Cultural e de Eventos, desde 1999.
Existem, ainda, o Curso Superior de Tecnologia em Produção Cultural, do Centro Federal Tecnológico de Química de Nilópolis - Cefet Química /CEFETEQ (atual IFRJ), iniciado em 2003, bem como os cursos superior tecnológico de Produção Cultural e de Eventos da Universidade Uniandrade de Curitiba-Paraná, e de bacharelado em Produção e Política Cultural no IH-UCAM (Instituto de Humanidades da Universidade Candido Mendes), ligado ao curso de ciências sociais. “O produtor surgiu como o ‘faz tudo’ da produção cultural. Era o quebra-galho. Mas esse perfil tem sido transformado nos últimos tempos, apesar de ainda não existir um mercado para nós trabalharmos”, revela o produtor cultural Cláudio David, de 30 anos.
Envolvido em projetos de produção artística, de música, de fotografia e de cinema, David explica que a formação dos profissionais não forçou o mercado a ser mais igualitário, principalmente no que diz respeito à captação de patrocínio a partir das leis de incentivo. “Os pequenos produtores continuam enfrentando problemas para conseguir levantar recursos, apesar de estarem muito mais preparados para desenvolver projetos culturais de qualidade”, diz David, acrescentando que a cultura é como uma construção coletiva. “Com meu trabalho, sei que interfiro na concepção cultural da cidade e vejo meus colegas fazerem o mesmo. O bom produtor deve estar atento à sua cultura e fazer uma reflexão do todo”, reflete.
Os cursos de produção cultural, atualmente, refletem sobre a atuação deste profissional nos projetos sociais, para que as pessoas possam ter uma melhor compreensão do que trata, na verdade, essa função. É o caso do Curso de Capacitação em Gestão Cultural, que vai ser ministrado em Brasília, por Leonardo Brant, entre os dias 14 e 15 de setembro. O curso custa R$250. Mais informações pelo e-mail Este endereço de email está sendo protegido de spambots. Você precisa do JavaScript ativado para vê-lo..