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Por Ive Andrade

Um jogo que tem apenas uma regra: o participante só pode se movimentar quando o outro, o “líder”, o fizer. E somente a partir dele. “Campo de Visão” é uma técnica que se apoia completamente na improvisação e no comprometimento de seus participantes, dando-lhes, em troca, maior percepção do outro, desenvolvimento da visão periférica e noção de espaço. Marcelo Lazzaratto é diretor artístico da Companhia Elevador de Teatro Panorâmico desde 2000, e, lá, o ator e diretor trabalha com a técnica de diversas formas, seja no desenvolvimento de suas peças, nos cursos administrados pela companhia ou em seu mestrado na Unicamp. “Campo de Visão” está na vida profissional de Lazzaratto há mais de 20 anos.

Sem autoria definida, segundo o próprio Lazzaratto, a técnica é um exercício coletivo de improvisação, que foi de encontro a sua carreira, no fim dos anos 1980, quando ainda cursava artes cênicas na Escola de Comunicação e Artes (ECA) da Universidade de São Paulo. “O diretor Marco Aurélio me apresentou a proposta e eu, como ator, me senti motivado. Quando comecei a dar aulas, desenvolvi a técnica sob meu olhar”, explica, acrescentando: “O ‘Campo de Visão’ é uma técnica que tem apenas uma única regra, na qual você só pode se movimentar quando o outro se movimenta. Esse outro pode ser uma música, um objeto, um personagem... Eu vou jogando elementos e os participantes reagem.”
Por trabalhar com o conceito de improvisação, são inúmeras as variáveis dentro da técnica, que permitem a ampliação da visão periférica do ator dentro de um ensaio, de um texto, ou dentro dele próprio e dos outros ao seu redor. “Posso desenvolver visando o objetivo que quiser, mas descobrimos que ‘Campo de Visão’ se estabelece como linguagem própria”, afirma Lazzaratto, referindo-se à peça “Amor de Improviso”, da Companhia Elevador de Teatro Panorâmico, que ficou em cartaz durante quatro anos.

“A peça nunca era ensaiada. Com ela, provamos a potência do ‘Campo de Visão’ como linguagem cênica. As pessoas que assistiam à peça não acreditavam que era improvisação. O espectador sempre acredita que o que está vendo é a versão definitiva, mas realmente uma apresentação nunca era igual a outra. Até a luz era improvisada, a mesma coisa com a música: eu tinha cerca de 80 CDs a minha disposição e os ia colocando aleatoriamente, fazendo com que os atores reagissem a partir deles”.

Cada apresentação do espetáculo era única, impossível de ser repetida por duas noites, graças ao “Campo de Visão”, que agia entre os atores e todos os envolvidos no desenvolvimento da peça. O público tanto não acreditava na improvisação que o diretor conta que, em uma das apresentações, faltou luz no teatro e ninguém percebeu. “Os atores continuaram atuando normalmente. Quando a luz voltou, todos acharam que aquilo, de fato, fazia parte do espetáculo, mas, na verdade, não.”

Apesar de mais procurado por atores, a técnica é acessível para todos, graças a simplicidade de sua abordagem, que exige que os interessados “estejam, apenas, disponíveis a participar, sejam atores ou não, experientes e com técnica ou não”, comenta Lazzaratto, que explica que o espaço da companhia permite aulas de até 25 pessoas e com um mínimo de oito. “As pessoas saem dilatadas dessa experiência, mais vivas. A técnica instiga a pessoa a ser criativa e a deixar que o outro te alimente.” 

Informações

A Companhia Elevador de Teatro Panorâmico está próxima de completar uma década de existência e já tem sete peças em seu currículo. Com sede na Rua Treze de Maio, em São Paulo, ministra cursos e realiza apresentações com seu grupo de atores dirigidos por Marcelo Lazzaratto. Para saber mais: http://www.elevadorpanoramico.com.br