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Guilherme Reis, curador do Cena Contemporânea fala sobre o reflexo do festival nos artistas da cidade

Por Adair de Oliveira

O Cena Contemporânea – Festival Internacional de Teatro, que ocorreu entre os dias 2 e 13 de setembro, em Brasília (DF), completou, este ano, uma década de existência. A pré-adolescência (somente a fase) revela, a cada ano, um festival mais adulto e maduro, que começou íntimo em alguns teatros do Distrito Federal. Criado em 1995 (houve anos em que o evento não foi realizado, daí as dez edições de comemoração em 2009), o Cena nasceu com a proposta de promover, na capital federal, a circulação de informações sobre teatro e dança por meio da exibição de espetáculos. O festival, com o passar do tempo, tem ampliado sua importância e dimensão, sempre em busca das melhores montagens do teatro nacional e internacional, além de proporcionar intercâmbio para os artistas locais e o público. Este ano o festival contou com uma extensão na cidade de São Paulo, onde os espetáculos podem ser vistos até o dia 20 de setembro.
De acordo com o curador do festival, Guilherme Reis, Brasília recebia poucos espetáculos, geralmente os grandes, com atores de renome na televisão que vinham para temporadas no Teatro Nacional a preços exorbitantes. Não estava incluído no circuito teatral alternativo. “Nós estávamos interessados em trazer para Brasília espetáculos que fossem além dos caminhos já conhecidos. Trabalhos experimentais, inovadores e inventivos, que fizessem o cruzamento das linguagens artísticas. Foi assim que nasceu o Cena”, conta.
Guilherme frisa que o evento segue com a preocupação de apresentar o que há de mais inquietante em termos de artes cênicas. Inclui-se na programação atividades de formação, como oficinas, workshops, conversas com os artistas sobre o processo de trabalho, seminários e fóruns de cultura, entre outros. “Acredito que, assim, o festival vai além de uma simples mostra de teatro. Ele interfere na vida da cidade. Ao propor estas atividades formativas para o espectador, o que se vê no palco surge mais aprofundado, mais compreendido. De acordo com vários depoimentos que recebo, sei que o Cena mudou o teatro de Brasília. O festival instiga os artistas e estudantes e irem mais fundo, a não quererem o banal, a buscarem o risco, a investigarem e confrontarem seus limites. Acho que tudo tem sido um grande aprendizado e uma troca que alimenta a cidade”, conclui.

Teatro na capital
Segundo o jornalista e dramaturgo Sérgio Maggio, o teatro brasiliense existe deste a fundação da capital. Há pesquisas que mostram a atividade proliferando nos primeiros anos da década de 1960 e, depois, sendo brutalmente coibida pelo golpe militar. “Imagine o que significou para a cultura, sobretudo o teatro, uma ditadura de quase duas décadas em uma cidade que estava nascendo. Hoje temos uma produção própria, alimentada por duas universidades – UNB (Universidade de Brasília) e Dulcina de Morais – que viaja o País e tem surpreendido público e crítica. O público interno de Brasília tem começado a enxergar isso e não só assistir a peças de artistas famosos. O Teatro Goldoni, por exemplo, na 210 Sul, vive lotado com produções locais de nomes de expressão nacional como Hugo Rodas, por exemplo”, conta.
De acordo com o diretor Fernando Guimarães, o Cena Contemporânea é importantíssimo para o desenvolvimento artístico na cidade. Ele avalia que “é uma excelente oportunidade de vermos espetáculos de grande qualidade e também o que está sendo produzido em outros Estados e países”. Para a atriz Clara Camarano, além de movimentar a cidade o evento é um espaço para os artistas de Brasília apresentarem trabalhos, bem como colocar Brasília em foco como produtor cultural, saindo do eixo Rio-São Paulo. A atriz ressalta, ainda, que o festival propicia ao público ver excelentes peças a preços populares. Cerca de 300 artistas participaram do festival. Durante 12 dias foram apresentados 24 espetáculos em 12 teatros.