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Trinta grupos teatrais, de sete estados brasileiros, ministrarão oficinas durante o evento, já considerado um dos maiores de Santa Catarina

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Olhar subjetivo do Festival

Por Camila Moreira, especial para o Jornal de Teatro*
*Camila Moreira é editora do suplemento Subjetivo, publicação diária produzida durante o FIT. Seu contato é Este endereço de email está sendo protegido de spambots. Você precisa do JavaScript ativado para vê-lo.

Muito além do cômico

O nariz vermelho é a tradução mais simples do palhaço. E quando falamos dessa figura tão conhecida nas artes cênicas, o riso é a primeira idéia que vem à mente. No entanto, não só da comédia vive essa figura. Na edição 2009 do FIT alguns espetáculos como “A Margem”, da Companhia do Gesto, e “O Silêncio dos Amantes”, Escola 2 Bufões, ambas do Rio de Janeiro, utilizam da técnica de clowns e bufões em um contexto que beira o dramático.
Em “A Margem”, por exemplo, o clown e o bufão são a base da construção dramatúrgica que se utiliza também de técnicas como a das máscaras, do teatro de sombras, de manipulação de bonecos e até mesmo do cinema, em um espetáculo sem texto algum. A peça mostra dois moradores de rua que compartilham o cotidiano de forma criativa e se comunicam por meio de sons.  “Em linhas gerais o espetáculo se pauta pelo humor – ácido em alguns momentos – para criar a reflexão, embora sem perder a possibilidade da poesia diante de uma temática dura como a dos moradores de rua,  exilados em meio às grandes metrópoles. Como na maioria dos espetáculos criados pela companhia, direção e atores compartilham juntos a criação do roteiro”, conta o diretor Luís Igreja.

Em um tom mais dramático, “O Silêncio dos Amantes” coloca em cena contos da romancista Lya Luft. No palco, os textos são transformados em monólogos, mas sofrem a interferência de outros personagens. Um mergulho lírico e trágico no universo de Lya Luft, falando da incomunicabilidade, da incapacidade de homens e mulheres de enxergarem o papel que ocupam nas vidas uns dos outros. “Histórias de partidas, de perdas, de danos, de palavras não ditas que levam ao drama, à intolerância e ao desamor. Por que há tristeza na vida, há solidão. Porque o teatro não se serve apenas do que é risível”, explica Moacyr Góes, diretor de “O Silêncio dos Amantes”.
Ambos os espetáculos levam a linguagem clown e bufanesca a um limite entre a comédia e o drama. O que, a princípio, parece um antagonismo, logo dá pra crer que o palhaço é aquele que faz rir com seu sofrimento. Na definição de Igreja, o clown é a redenção do Homem. “Verdadeiro antídoto ao mal que aflige a humanidade, que acredita na perfeição e na busca incessante pelo poder e pela vitória. O palhaço é um vencedor nato, pois faz da derrota alimento para o prazer, individual e coletivo. O palhaço aproxima os seres, devolve o indivíduo a sua condição elementar de simplicidade, da poesia, do afeto, do amor e da cólera. O Palhaço propõe um olhar vivo, não condicionado”.


Cenário público

Rua: Caminho público; o conjunto de lugares frequentados pelas pessoas em geral. A rua é o espaço público por natureza. Com o Teatro de Rua é exatamente a mesma coisa. A arte é feito para todos e pertence a todos. O acesso é livre, a interação é imprescindível e a adequação a fatores externos, um desafio. Desafio esse que o FIT promove ano a ano a vários grupos participantes.
Nesta edição, uma das atrações é o Oigalê Cooperativa de Artistas Teatrais, de Porto Alegre (RS), com o espetáculo “Miséria, Servidor de Dois Estancieiros”. O grupo possui dez anos de experiência no fazer teatral em lugares públicos e conhece bem todo o trabalho e aprendizado do Teatro de Rua. “O teatro em sua essência iniciou na rua, e o teatro de rua é um resgate à questão humana. Propõe olho a olho o contato direto público-espectador, onde, muitas vezes, o público está em cena. Nós temos de ter uma questão clara sobre a formação cultural das pessoas e de toda sociedade ou de uma comunidade”, afirma Giancarlo Carlomagno, ator do espetáculo.
Apresentações teatrais em espaços públicos promovem uma aproximação da linguagem teatral com o cotidiano da população. Dialogando com espaços alternativos ao palco e, principalmente, promovendo contato direto do teatro com as pessoas, inclusive aquelas que nunca tiveram a oportunidade de assistir a um espetáculo. Segundo Carlomagno, o Teatro de Rua é, em muitos casos, o primeiro contato do público com arte teatral e, em outros, talvez a única oportunidade.
Esses fatores fazem do Teatro de Rua um trabalho complexo e sério. Porém, essa seriedade geralmente fica bem longe das apresentações, no bom sentido, claro. O Teatro de Rua traz o humor, a vivacidade em cores e movimentos, a alegria da linguagem popular. Uma intervenção quase mágica no cotidiano das pessoas. Todos param para ver.
“Democracia não é democratismo. Queremos levar cultura e teatro para seres humanos como nós, ocupar os espaços públicos. Todo dia é um dia novo, cada espetáculo é um dia. A receptividade tem sido muito boa. O público é quem quer ver e quem tem a carência de cultura, do teatro de rua. Nós temos que ir mais a este Brasil, fazer mais apresentações”, sugere Carlomagno.
Nessa linha de atuação, o FIT promoveu durante os dez dias de festival, uma série de apresentações teatrais gratuitas por toda a cidade desde o centro até os bairros da periferia e, neste ano, até mesmo a seis cidades da região, por meio da Extensão Regional. Essa disseminação de apresentações por toda a parte promove uma integração com do público com o Festival, não limitando o acesso a apenas pessoas da área artística e comunicadores.
No FIT 2009, entre as apresentações em lugares públicos que a população pôde conferir estiveram: a performance “Baby Dolls – Uma exposição”; “Servidor de Dois Estanceiros”; “É Poesia Popular”; “Das Saborosas Aventuras de D. Quixote de La Mancha e seu Fiel Escudeiro Sancho Pancha – Um Capítulo que Poderia Ter Sido”; e os internacionais “Arcane” e “Sienta La Cabeza”.

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Por Michel Fernandes*, especial para o Jornal de Teatro

A curadoria do FIT (Festival Internacional de Teatro) de São José do Rio Preto 2009 – formada por Francisco Medeiros, Jorge Vermelho e Sidnei Martins – merece nossos sinceros aplausos e os votos de que, para a décima edição, continue a contribuir com tamanha excelência para as artes cênicas do Brasil e que também inclua em sua programação espetáculos e/ou atividades direcionadas à Arte Inclusiva, segundo proposição do Filo (Festival de Teatro de Londrina) 2009, que remeteu carta aos principais festivais, nacionais e internacionais, sobre o respectivo assunto, o qual motivou artigo escrito para a oitava edição deste jornal.
Segundo Jorge Vermelho - além de ser um dos curadores, ele é o diretor geral do FIT Rio Preto - a idéia temática do Festival, “Instâncias da Subjetividade”, surgiu da própria opção em convidar espetáculos que, de alguma forma, dialogassem com o espectador, ou seja, cujo sentido final da obra que se via no palco – ou nos espaços não convencionais em que alguns dos espetáculos foram abrigados – permitisse a efetiva participação do público para o fechamento do sentido da mesma. “Um mesmo espetáculo pode ser amado ou odiado dependendo do ponto de vista de cada um, do momento que ele vivencia quando recebe a obra. É uma terceira leitura diferente da dos autores, atores, diretores, enfim, dos criadores das peças”, disse ele.


Destacarei alguns dos espetáculos bastante significativos no aspecto de exigência da participação do público para sua concretização. Começo do primeiro espetáculo a que assisti, “Crónica de José Agarrotado (Menudo Hijo de Puta”, da companhia espanhola Los Corderos.sc, criado e dirigido pelos intérpretes, cujo início fortemente calcado nas relações dos dois intérpretes – que podem ser um casal que enfrenta as vicissitudes do cotidiano a dois ou, então, o superego de um dos personagens, seu negativo feito fenômeno fotográfico. Quando entram em cena, os diálogos servem mais para ilustrar a incompetência de nossos diálogos coloquiais que para tentar um esboço de enredo lógico que estabeleça uma relação passiva do espectador diante do espetáculo. É preciso que o receptor dos códigos teatrais deste espetáculo seja coautor do mesmo para a finalização do processo de comunicação se concretize, sempre de maneira bastante particular para cada pessoa. Resultado: cada qual sai do teatro com uma história que estruture o que viu, sem que seja a mesma do outro. É essa pluralidade de sentidos que torna o espetáculo ainda mais instigante.
Indicado ao Prêmio Shell de Teatro deste ano na categoria Melhor Ator, Eduardo Okamoto levou ao Teatro Nelson Castro, local em que apresentou “Eldorado”, pessoas que já conheciam outros trabalhos e sabiam que “ele apresentaria coisa interessante”, caso do jornalista Rodolfo Borduqui. Em “Eldorado”, Okamoto vive um cego que perambula atrás da idealizada Eldorado – cidade cuja poeira é ouro em pó, por exemplo – e chega sempre ao sertão em que viveu e morreu sua mãe, ao lado de sua inseparável rabeca, humanizada por ele para que seja sua interlocutora e o salve da abissal solidão de órfão. O que lhe responde a rabeca quando ele conversa com ela? Essa pergunta guiou meus passos para a liberação da subjetividade do público em matéria que realizei na cobertura que fiz para o Aplauso Brasil durante o FIT.
Em meu último artigo para o Jornal de Teatro dissertei sobre as obsessões de Nelson Rodrigues, um de nossos mais importantes dramaturgos, e ressaltei a obsessão de duas protagonistas suas – Moema, de “Senhora dos Afogados”, e Zulmira, de “A Falecida” – que, além dos caracteres obsessivos que carregam em suas trajetórias, são objetos diretos de duas recentes incursões ao universo do dramaturgo. Na versão que marcou a estreia paulista de “A Falecida Vapt-Vupt”, o Grupo Macunaíma – CPT Sesc, dirigido por Antunes Filho, trouxe um Antunes “mais solar”, segundo pontuou o ator Lee Thalor, desenvolto e com abundância de talento na pele de Tuninho, marido de Zulmira diametralmente oposto, enfim, ao soturno e mítico de “Senhora dos Afogados”. Em “A Falecida Vapt-Vupt”, o tempo lento e os gestuais expressionistas, a recordar uma coreografia de butô, são substituídos pela dinâmica proposta pelo texto sincopado e direto de Nelson Rodrigues. Segundo o ator Erick Gallani, também assistente de direção da montagem, o universo da vídeo-arte inspirou o trabalho, tanto em sua acelerada dinâmica quanto em sua estrutura estética em que figurantes sentados em mesas de bar, formando o cenário, ruídos de espaços públicos, música ambiente, são camadas que exigem do público “outras formas de percepção”, como disse o ator Lee Thalor. É um modelo exemplar daqueles espetáculos que Jorge Vermelho aponta como passível de amor e ódio. O estranhamento e confusão exigem que fiquemos mais atentos, daí ou abrimos nosso receptáculo à peça ou nos entregamos ao tédio de quem busca o sofisticado, sem permitir que ele abrigue o simples.


A delicadeza mora
no Rio de Janeiro
Dois espetáculos cariocas, “In On It” e “Inveja dos Anjos”, são tenros exemplares do minimalismo dentro do teatro em busca da delicadeza. Enrique Diaz e Paulo Moraes, respectivamente diretores de “In On It” e “ Inveja dos Anjos”, enfocam o trabalho na força poética da interpretação dos atores, para os quais interpretar com naturalidade nada tem de compromisso com o pseudorrealismo, tão mal compreendido por quem estuda Stanislavski via método e não sistema.


Rainhas,
atores, atrizes
Outros dois espetáculos que não podemos deixar de mencionar, devido suas qualidades e adequações ao tema do FIT, são “Neva”, do Chile, e “Rainha [(S)] – Duas Atrizes em Busca de um Coração”, que mesclam ficção e verdade com maestria, tocando, ambos, no ofício do ator como objeto da realidade.

* Michel Fernandes é jornalista cultural, crítico e pesquisador de teatro. Editor do www.aplausobrasil.com.br

 

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Por Daniel Pinton

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Se por um lado a aplicação do Novo Acordo Ortográfico da Língua Portuguesa trouxe a equiparação da escrita entre os países colonizados por Portugal, a segunda edição da Festlip (Festival de Teatro da Língua Portuguesa), ocorrida de entre os dias 2 e 12 de julho, no Rio de Janeiro, celebrou as diferenças culturais entre Angola, Brasil, Cabo Verde, Guiné-Bissau, Moçambique e Portugal. Além de 11 espetáculos teatrais, abertos ao público, encenados por grupos destes países no Espaço Sesc, no Sesc Tijuca e no Teatro Sesc Ginástico, eventos temáticos foram promovidos pela cidade em busca de maior intercâmbio de informações entre os representantes da língua lusófona.
"Um dos objetivos do festival é justamente tornar possível este diálogo entre as linguagens de trabalho em diferentes culturas, de tornar viável um encontro de irmãos de língua para uma comunicação sem fronteiras. Se a unificação do idioma é uma questão complexa, a unificação pelo teatro também é, mas tem se tornado realidade. Através das artes cênicas, pode-se refletir sobre esta questão. A ideia é, inclusive, criar um banco de dados com os atores de língua portuguesa e, no futuro, dar origem a uma cooperativa de profissionais de teatro", projeta Tânia Pires, idealizadora e produtora do Festlip.
O movimento artístico do festival, no entanto, não ficou restrito apenas aos palcos teatrais. No dia 4 de julho, o Estrela da Lapa recebeu o Festlipshow, uma série de apresentações musicais com artistas lusófonos como Fidjus e Mario Lucio, de Cabo Verde; Abel Duerê, de Angola; DJ Falcão e Bongar - Coco da Xambá, do Brasil. A gastronomia dos países também se fez presente desde a abertura do festival e pode ser conferida até o dia 31 de julho, durante a Mostra Gourmet - O Sabor da Língua Portuguesa, no Restaurante 00 Cozinha Contemporânea, na Gávea (anexo ao Planetário).
"Ainda existe, no Brasil, o não despertar para o conhecimento e consumo das culturas dos nossos irmãos de língua. Enquanto isso, a cultura brasileira adentra sem grandes dificuldades e permeada de aplausos em todos os países da língua lusófona. Na primeira edição do Festlip, ficou claro que a unificação da língua falada é algo intangível. A peculiaridade das expressões e vocabulários é a referência mais forte de um povo. Essa distância só tem um caminho a ser quebrada, através do intercâmbio cultural entre esses países", justifica Tânia.
Nesta edição do festival, o homenageado e ganhador do Troféu Festlip - 2009 foi o premiado escritor e dramaturgo moçambicano Mia Couto, protagonista de expressiva contribuição e aprimoramento do teatro em seu país. O prêmio revelação ficou com o grupo português Artistas Unidos pela peça "Uma Solidão Demasiado Ruidosa".


Espetáculos encenados

De Angola:
- Grupo Elinga Teatro
Espetáculo "Kimpa Vita: A Profetiza Ardente" - texto e direção de José Mena Abrantes
- Grupo Horizonte Nzinga Bandi
Espetáculo "Sobreviver no Tarrafal" - texto de Antônio Jacinto e direção de Adelino Caracol

Do Brasil:
- Cia. Luna Lunera (Belo Horizonte-MG)
Espetáculo "Cortiços" - concepção da Cia. Luna Lunera e Tuca Pinheiro e direção de Tuca Pinheiro
- Cia. de Teatro Antroexposto (São Paulo-SP)
Espetáculo "Complexo Sistema de Enfraquecimento as Sensibilidade" - texto e direção de Ruy Filho

De Cabo Verde:
- Grupo de Teatro do Centro Cultural Português de Mindelo
Espetáculo "No Inferno" - texto e direção de João Branco
- Companhia de Teatro Solaris
Espetáculo "Psycho" - texto de Valódia Monteiro e direção de Herlandson Lima Duarte

De Guiné Bissau:
- Grupo Teatro do Oprimido - Bissau GTO
Espetáculo "Nó Mama - Frutos da Mesma Árvore"

De Moçambique:
- Grupo M'BEU
Espetáculo "O Homem Ideal" - texto e direção de Evaristo Abreu
- Grupo Tijac
Espetáculo "Mar Me Quer" - texto de Mia Couto e direção de Mickael Fontaine

De Portugal:
- Companhia Teatral Primeiros Sintomas
Espetáculo "Lindos Dias" - texto de Miguel Castro Caldas e direção de Bruno Bravo
- Companhia Teatral Artistas Unidos
Espetáculo "Uma Solidão Demasiado Ruidosa" - texto de Bohimil Hrabal e direção de Antônio Simão

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