0
0
0
s2sdefault

 

“Porra, será que o Próximo Ato cabe num jornal?” Foi a dúvida de que partimos para escrever esse artigo. Nós, da Bacante, acompanhamos o encontro internacional de 2009 do programa Próximo Ato, promovido pelo Itaú Cultural, que aconteceu de 3 a 7 de novembro de 2009. Essa experiência passou longe de ser uma cobertura jornalística: queríamos estar lá como participantes, com a mesma intenção e expectativa que os grupos tinham de vivenciar um ambiente de trocas de experiências e discussão de questões polêmicas entre coletivos. E estávamos muito abertos a essa troca, já que, cada vez mais, assumimos a Revista Bacante como um coletivo de reflexão sobre o teatro, permanentemente aberto e disposto, sobretudo, a aproveitar o potencial da internet para ampliar as possibilidades e a diversidade da discussão.

Por Revista Bacante*


Esta foi a sétima edição do encontro e a quarta abordando especialmente as experiências do teatro de grupo no Brasil. Dos cinco dias de cobertura, resultaram, além de inúmeras conversas de bar, alguns posts no Blog da Bacante, um balanço geral dos organizadores e ainda um especial contendo entrevistas curtas com os grupos – o projeto era questionar todos os grupos (ou quantos conseguíssemos importunar) a respeito de três temas que estão sempre em destaque na Bacante – seja nas críticas, seja nos comentários: 1. Financiamento: como o grupo financia seus trabalhos?; 2. Diálogo com o entorno: como as questões da sua região estão presentes na obra do grupo e, por outro lado, como o grupo está presente nas questões de sua região?; 3. Fator agregador: qual o fator agregador/definidor/de união do grupo? A partir daí, construímos um panorama – cheio de buracos, mas muito diverso e sem edições – de como pensam os grupos de teatro no Brasil.
Para este relato breve do que foram esses dias de encontro, talvez seja menos importante dizer da passagem dos palestrantes Hans Thies Lehmann, Nicolas Bourriad e Óscar Cornago. Não, não estamos desconsiderando a importância dos convidados internacionais, justamente no sentido de ampliar horizontes de reflexão e provocar, incentivar, ou mesmo bagunçar pensamentos – inclusive publicaremos assim que possível uma entrevista “exclusiva” (chique, não?) em alemão (ok, essa parte é mentira) com o teórico do teatro pós-dramático. O que estamos dizendo é que, ainda mais potente do que ouvir Lehmann sobre o teatro contemporâneo, foi ouvir quem faz o teatro contemporâneo brasileiro em todo e qualquer canto do país.

 

Como alertou a gerente do núcleo Cênicas do Itaú Cultural, Sônia Sobral, não devemos nos iludir acreditando que estava ali “todo o teatro brasileiro”. Não estava. Mas estavam pelo menos dois representantes de grupos de cada um dos 26 Estados do país e do Distrito Federal, o que, de alguma forma, já nos deixa mais próximos da diversidade de sotaques, posturas, demandas.

Nos primeiros dias, os representantes participaram de uma experiência com a performer Eleoora Fabião, em que foi possível trocar a experiência não só do discurso, mas a da prática e buscar uma interação que independia das palavras. Na noite de quinta-feira, como celebração do encontro, os grupos fizeram uma performance no vão livre do MASP, à meia-noite. Claro, para si mesmos, já que não havia pedestres para desfrutar o momento junto aos artistas naquele horário, ainda mais com o azar de uma chuva repentina. A experiência performática voltada ao próprio umbigo, ou seja, sem reverberar nem interferir na cidade que a abrigou, sugere o significado desses primeiros dias de encontro: o contato e conhecimento entre os grupos e restrito a eles. Além disso, mostra uma dificuldade deste movimento que ainda engatinha: com tamanha diversidade de pensamento e de demandas, como estabelecer uma pauta, uma bandeira, uma demanda, uma força comum que dê sentido a essa união, a esse e aos próximos encontros?


Sobre este e outros assuntos, as discussões entre os grupos concentraram-se nos últimos dias, por meio de duas estruturas: os Espaços Abertos e a Plenária. Falou mais alto entre as muitas demandas a bandeira defendida com veemência pelos representantes do norte do País: a discussão e inclusão como demanda nacional e não unicamente regional do chamado “custo amazônico” - ou seja, os custos elevados de produção e circulação nos municípios amazônidas, em função dos inúmeros obstáculos como voos poucos e caros, estradas ruins ou inexistentes, locais em que só se pode chegar de barco etc.

Dos Espaços Abertos saíram relatos que serão publicados no blog do Próximo Ato; da Plenária, resultou um documento que está sendo finalizado para ser levado a público e compartilhado com as Conferências de Cultura. E, para além disso, ambos tiveram como resultado impalpável a possibilidade de vislumbrar nos grupos o amadurecimento político e de reflexão sobre o fazer artístico. Tal evolução aponta para caminhos realmente conectados com a coletividade e em direção à participação efetiva na construção de políticas públicas e no cenário artístico do país. Então, quem sabe um dia possamos nos dar a liberdade de discutir estética ou mesmo a base dos nossos conceitos de cultura e arte. Por enquanto, nesse momento histórico, ainda estávamos discutindo sobrevivência. E fica claro que sobreviver em movimento e em grupo parece bem mais possível.
A resposta para a pergunta que inicia esse texto é não. O Próximo Ato não cabe no jornal, como também não coube na Bacante, como também não coube no projeto do Itaú Cultural. No Itaú, ele vai virar o programa Rumos Teatro, que apoiará, via edital, projetos de interação estética entre coletivos. Na Bacante, vai virar memória, estatística e piada. No Brasil, espera-se, vai virar um movimento autônomo, desvinculado do que os investidores pensam ser importante para o teatro brasileiro, mas às demandas e aos esforços dos próprios coletivos.
Alguns links que julgamos importantes e servirão para atingir mais camadas nesse artigo (porque, afinal, nós pensamos em hipertexto, não tem jeito)

 

*A Bacante é um coletivo aberto de crítica teatral que pode ser encontrado somente na internet. Se quiser conhecer mais, acesse:

www.bacante.com.br.
www.proximoato.wordpress.com
http://blogs.cultura.gov.br/cnc/