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Em matéria especial para o Jornal de Teatro, Nilton Guedes entrevista o ator, diretor, escritor e dramaturgo Ailson Braga, que fala  sobre os mais de 30 anos de atividade teatral na capital paraense.

Nilton Guedes: Como diretor do Sistema Integrado de Teatros, que análise faz do atual momento nas atividades teatrais no Pará?

Ailson Braga: Estamos em um momento de mudança e de fragmentação. Há muita gente nova produzindo teatro e grupos tradicionais ainda se mantém na ativa.  Esse momento em que duas gerações se encontram pode ser muito criativo e só deve ter seus reflexos e seu alcance definidos mais tarde. É preciso um pouco de paciência histórica para ver o que esse momento vai significar, mas eu vejo como um momento de mudança em busca de maior profissionalização. A Escola de Teatro da UFPA começa o curso de graduação com bacharelado em teatro em 2010 e nossa escola em nível médio é uma das mais antigas do Brasil. Temos uma tradição na arte teatral que ainda não foi plenamente reconhecida, seja aqui seja no resto do País.
NG: Não é hora de regularizar a profissão no Pará?
AB: Acho que a criação de um sindicato é urgente no Pará. A definição de novos rumos para a Fesat (Federação Estadual de Atores, Autores e Técnicos) é urgente também. Temos uma federação que representa uma parcela mínima dos grupos que mais produzem e que são mais atuantes no Pará. É esse momento de mudança e de fragmentação a que me refiro: há coisas muito boas acontecendo e certos marasmos e falta de organização ao mesmo tempo, convivendo juntos. As cidades fora do eixo da região metropolitana de Belém também começam a produzir mais teatro e a tentar buscar uma qualidade e maior pesquisa no teatro. O Pará – especialmente Belém – tem em comum o trabalho de grupo. Os grupos e suas linguagens determinam o fazer teatral paraense. Temos grupos – novos e tradicionais – que produzem espetáculos contemporâneos, com pesquisa séria e de qualidade. O que ainda precisamos construir é o chamado mercado para o teatro. O trabalho de formação de plateia deve ser constante.

NG:Você acredita que a classe teatral paraense está no caminho certo? 
AB: Acho que a categoria teatral está em busca de respostas. Temos um grupo como o Gruta, que tem 40 anos, e que faz teatro com o mesmo frescor de quando surgiu, com pique, com coerência, com estudo, com um trabalho voltado para a fé cênica, para o trabalho de ator. Temos o Grupo Experiência, que também é um dos mais atuantes há décadas, com um trabalho que vai do regional ao clássico. Temos um grupo como o Cuíra do Pará, que está sempre produzindo comédias e espetáculos densos, além de manter seu próprio espaço ali no centro da cidade. Temos, ainda, novos grupos que atuam em linguagens de teatro de bonecos como a In Bust, de clowns, como os Palhaços Trovadores, enfim, uma série de grupos que trabalham em busca de excelência artística. Isso só para citar uns poucos e cometendo injustiças com tantos outros grupos que existem em Belém. Por outro lado, temos os grupos que repetem os mesmos erros há anos, com um teatro sem verdade, com os atores gritando feito uns insanos, peças muito ruins e sem aprimoramento técnico. Temos essas realidades. Não sei dizer se é o caminho certo, mas que é um caminho que merece ser estudado e melhor compreendido, isso é.

NG: O Teatro Experimental Waldemar Henrique completa 30 anos. Qual a importância deste espaço cultural no cenário artístico da capital paraense?
AB: O TWH (Teatro Waldemar Henrique) surgiu em uma época que só havia na cidade o Teatro da Paz – que é muito grande e não aceita certas experimentações até por sua estrutura de palco italiano, por ser um teatro monumento. Os artistas – especialmente o Grupo Cena Aberta – foram fazer teatro na rua na década de 1970 não por opção, mas como denúncia pela falta de um espaço que abrigasse o experimental e o popular. De tanto se gritar, as autoridades conseguiram ouvir e criar o espaço. O teatro, infelizmente, está muito deteriorado, após décadas de administrações desastrosas. Mesmo com a reforma dos anos 1990, o ar condicionado, as panadas, o sistema de iluminação e de som não foram trocados, tendo quase a mesma idade do teatro. A gerência do teatro tenta a todo custo conseguir recursos para a troca do ar – já está aprovada metade do recurso e uma campanha em prol do teatro começa ainda este ano. O teatro foi projetado por Luís Carlos Ripper e é um dos únicos do Brasil que permitem a mudança de palco e plateia de formas inusitadas, já que tem a característica de ter palco e platéia móveis. É o teatro considerado pelos artistas como o que mais está próximo deles e de suas lutas. E não é só ator que considera o “Waldeco” como sendo um espaço de resistência e de luta. O pessoal do rock, da música regional e da dança também chama o Waldemar de seu.

NG: Como ator e autor, você acredita que houve renovação de talentos nas últimas décadas no setor teatral paraense?
AB: Com certeza. Vimos o surgimento de homens de teatro como o Adriano Barroso, que também atua na literatura e no cinema. Além dele podemos citar Ester Sá, David Mattos, Adriana Cruz, Maurício Franco, Aníbal Pacha, enfim, uma série de pessoas que trabalha na capital e nos municípios paraenses. Aí, acho que vale um adendo sobre o tamanho de nosso Estado. O Pará é enorme e muito diverso. A mesma cultura da capital, com suas comidas típicas, lendário e tudo mais, não é o que se vê no Sudeste do Estado, com uma colonização basicamente vinda do Sul e Sudeste do Brasil. Então, o teatro paraense também é múltiplo e em muitos lugares está em processo de formação de sua identidade. O intercâmbio, devido às distâncias, também não ocorre de forma ideal. A internet está ajudando a diminuir essas distâncias, mas ainda há muito desconhecimento de quanto somos e o que fazemos em termos de teatro no Pará. 

NG: O que precisa ser feito para o setor teatral paraense alcançar níveis mais próximos do eixo Rio-São Paulo?
AB: Nada. Seja sob o aspecto do bom ou do ruim, produzimos coisas bem parecidas às do eixo Rio-São Paulo. O que falta é essa troca de informações sobre o que fazemos aqui. Nós também não temos conhecimento (ou sabemos bem pouco) do teatro de grupo feito nesse eixo. O que nos falta, basicamente, é uma plateia com mais educação para as artes e uma ampliação do mercado. O mercado aqui ainda está em formação. O que não significa que é uma coisa ruim. Falta, também, uma política pública específica para o teatro. O governo do estado, após 12 anos, estabeleceu uma política de editais, que inclui editais de auxílio-montagem, de isenção de pautas nos teatros públicos e de projetos voltados para as diversas regiões do Pará. Destacamos o projeto Cena Interior, que é de montagem de espetáculos nos municípios do interior, com atores e técnicos da cidade escolhida para o projeto e direção artística de um profissional paraense que vai para o município e trabalha com suas rotinas e métodos. Isso é muito bacana, pois mostra a jovens que o ofício do ator exige disciplina e muito estudo.

NG: Comente os pontos mais expressivos na produção teatral paraense, exemplificando aqueles que marcaram a virada do milênio.
AB: Não citarei espetáculos aqui porque cometeria uma série de injustiças. Mas uma coisa eu afirmo: o teatro paraense precisa ser mais divulgado para o resto do País. Acho que temos uma forma de fazer teatro muito coerente, muito contemporânea, com pesquisa e com compromisso.  Acho que a Amazônia também deve ser conhecida pela sua arte, pelo seu teatro. Também é preciso dizer que os atores e técnicos locais devem estudar mais a história do teatro paraense e olhar com mais cuidado o seu futuro. Temos que nos questionar acerca de como será o futuro desse ofício em nosso Estado, seja no âmbito da produção artística, seja no âmbito do mercado e da circulação. A mim me parece que temos que começar essa discussão o mais rapidamente possível. A discussão de uma lei específica para o teatro, em nível estadual e que garanta recursos financeiros a serem aplicados em projetos de teatro, como já existem em Estados como São Paulo, também já teve início e deve ter desdobramentos interessantes.

NG: Há avanços na estrutura da política cultural?
AB: Após 12 anos com uma Secretaria de Cultura voltada para o patrimônio edificado – que é importante, mas que excluiu os artistas e os produtores culturais – o governo do Estado começa a abrir suas portas aos segmentos artísticos, implantado uma política pública de editais, ampliando as ações para fora da capital, reconhecendo a importância de outras cidades na produção de bens culturais materiais e imateriais. Após mais de uma década com seu trabalho centrado na capital, longe dos artistas, as expectativas e exigências são muitas da parte de quem faz arte e cultura acerca do trabalho do governo do PT. O governo tem um desafio enorme: deixar sua marca de mudança nas áreas das artes e da cultura.

CURRÍCULO ARTÍSTICO


Ailson Braga é ator, diretor teatral, escritor, dramaturgo e jornalista. Faz teatro desde 1974, em Belém do Pará, e trabalhou com os diretores paraenses: Henrique da Paz, Luiz Otávio Barata, Zélia Amador de Deus, Adriano Barroso, entre outros. Atuou em mais de 30 espetáculos. Em televisão faz comerciais desde 1981 e trabalhou como ator em campanhas políticas do Partido dos Trabalhadores.
Apesar de atuar em Belém (PA), o artista teve passagens por João Pessoa (PB), em 1985, onde trabalhou com Fernando Teixeira, ator, diretor e dramaturgo no espetáculo “Um tomate esmagado por um carro”; atuou em São Paulo, entre os anos de 1992 e 1996, sob a direção de Robert McCrea (“A trágica história de vida e morte do Dr. Faustus”), Carlos Palma (“Castro Alves pede passagem”), Flávio Costa e Marcello Costa (“O circo do Seu Bolacha”).
Em teatro, ganhou prêmios de melhor ator no Festminas 1998, com o espetáculo “Hamlet-máquina”, e melhor ator, em 1991, pela Fesat (Federação Paraense de Autores, Atores e Técnicos de Teatro), com o espetáculo “Caosconcadicáfica”. Em cinema, fez os filmes “Araguaya - conspiração do silêncio”, de Ronaldo Duque; “O sol do meio-dia” (2009) de Eliana Caffé, o DOC-TV “Chupa-Chupa - a história que veio do céu” (2007), dirigido por Roger Elarrat e Adriano Barroso, “Miguel Miguel”, baseado na obra de Haroldo Maranhão (2009), minissérie para a TV Cultura do Pará (a ser lançado), além dos curtas “Vernissage”, de Roger Elarrat, e “Enquanto chove” (2003), filme de Alberto Bitar e Paulo Almeida, baseado no livro homônimo de autoria do próprio Ailson Braga. Faz a voz do personagem “Caranguejo”, nas animações “Onda- festa na pororoca” e “O rapto do peixe-boi”, do diretor e animador Cássio Tavernard. Também fez a voz do personagem “Velho/Duende”, da animação “Cadê o verde que estava aqui?”, de Biratan Porto.
Em 2002, lançou o livro “Enquanto Chove”, resultado da bolsa-prêmio de literatura do Instituto de Artes do Pará. Foi selecionado com o conto “O tripa” para o concurso “Machado de Assis” do Sesc-DF no ano de 2007. Em 2008, foi convidado para o projeto Portfólio, do Instituto Itaú Cultural, com o texto “Desterro”. Escreveu o texto “A peleja dos soca-socas João Cupu e Zé Bacu”, montado pelos grupos In Bust Teatro com Bonecos e Grupo Gruta de Teatro, ambos de Belém do Pará. Ministrou oficinas de iniciação ao teatro, interpretação e leitura de textos pela Fundação Curro Velho e de literatura (Iniciação à poesia) pelo Instituto de Artes do Pará.