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Por Rodrigo Monteiro, especial para o Jornal de Teatro*

Vera Karam completaria 50 anos em 2009. A Coordenação de Artes Cênicas de Porto Alegre possibilitou, entre os dias 19 e 22 de outubro, uma oportunidade de conhecer e lembrar desta que, junto com Ivo Bender e Caio Fernando Abreu, completa a tríade dos grandes dramaturgos gaúchos. Estamos no evento. A luz sobe: um vermelho intenso a lembrar os lábios irremediáveis de Vera. Trilha: veludo veloz.


Eu:
Lembrava dos títulos e tenho os contos publicados. Para mim, no entanto, que vergonha!, até então, ela era uma desconhecida. E, por ela, vejo em mim desconhecidos. Está nos seus diálogos esse encontro em mim e comigo com outros que não conheço.

Entra o tempo. Palco claro.

Leituras dramáticas realizadas por atores muito conhecidos na capital gaúcha (lista):
Carlos Cunha e Laura Backes (A florista e o visitante); Raquel Pilger (Visita à vovó); Marcelo Adams e Margarida Leoni Peixoto (O casal ou Você nunca disse que me amava); Lourdes Eloy com Carlos Cunha (Dá licença, por favor); Clarice Nejar, Giovana Zottis, Mariana Velhinho e Fábio Castilhos (Quem sabe a gente continua amanhã?).

Mesas de debate, reflexão, memórias (lista):
Luiz Antônio de Assis Brasil (a prosa de Vera K.); Décio Antunes (a dramaturgia de Vera K.); Luciano Alabarse (a atriz, a iluminadora, a teatreira).

Espetáculo:
Maldito Coração me alegra que tu sofras (Ida Celina com direção de Mauro Soares).

Exposição de Fotos e Vídeos:
Foyer.

Público procurante:
Homenagem.

Saem.

Eu (vendo):
Vera começou a escrever em 1990. Onze peças de teatro. Contos fundamentais. A habilidade de contextualizar nas relações familiares ou, ao menos, próximas as impossibilidades diante do estranho. Relações trancadas, truncadas. Humor negro: rimos do que não se ri. Vera K. faz ver na estranheza do outro o estranho em nós mesmos.

Eu saí. Palmas são ouvidas. A ideia do projeto é de Marcelo Adams. A coordenação é de Breno Ketzer Saul.

Vera entra. Vermelho. Estudou Letras e Artes Dramáticas. Conviveu com o câncer no intestino durante cinco anos. Admirava Eugenne O’Neil, Tennesse Williams e Nelson Rodrigues. Recomendava “Gueto Bufo” (espetáculo dirigido por Daniela Carmona, ainda em cartaz) e “Jogos na hora da sesta (Direção: Paulo Albuquerque). Dizia que a vida era difícil. Quase tinha ataques cardíacos com alterações em seu texto e fazia questão de manter uma estreita relação com os diretores de seus espetáculos. Odiava a novela “Laços de Família”, mas gostava do Zé Victor Castiel.

Vera (com língua afiada):
Vera Karam, também desconhecida como Vera K, é natural de Pelotas (RS), embora seja difícil de acreditar que uma pessoa nascida em Pelotas seja “natural”. É professora de inglês, eterna estudante de letras e ex-atriz, tendo largado a carreira, por razões obscuras, no auge do anonimato. Avisa aos estudiosos de sua obra que esta pode ser dividida em A.O. e D.O. (Antes da Oficina e Depois da Oficina). Adora cantoras de blues; é apaixonada por Eugene O’Neill e fã incondicional de Ligia Fagundes Telles. Não menciona idade, mas deixou escapar que lembra da revolução de 64: da Casa Louro, da revista “escrita” e freqüentou os resquícios da “esquina maldita”. Adora pimenta, sabe de cor “...E o Vento Levou” e leu “A Convidada” sete vezes. Tem o estranho hábito de falar de trás para diante. Aceita críticas, mas só pelo correio e acompanhada de fotos 3x4. AJESED A SODOT AMU AOB ARUTIEL. Vera K.

Vera fica. Todos voltam. Autores não morrem, não desaparecem. Somos sempre convidados a visitá-los.

O pano não fecha. E ninguém vai embora.

* Rodrigo Monteiro é crítico teatral. Mestrando em Artes Cênicas na Universidade Federal do Rio Grande do Sul e colaborador das Revistas Informe C3 (Digital), Things Mag (Impressa), dos sites Artistas Gaúchos e SATED/RS. É autor do blog www.teatropoa.blogspot.com.