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Por Daniel Pinton Schilklaper


Fosse Jussara Freire uma atriz comum, ainda assim sua entrevista seria bastante interessante.

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Por Bruno Pacheco

Quando mudou-se do interior de Minas Gerais para São Paulo, aos 17 anos, Regina Braga carregava consigo a vontade de fugir do cenário ao qual as garotas daquela cidade eram levadas. Casar-se com um fazendeiro não passava pela sua cabeça. Tão pouco tornar-se atriz. Enquanto as amigas faziam planos para a vida ao lado de um “Rei do Gado”, Regina queria apenas ser diferente. Ir para a cidade grande era um bom começo. Cogitou, em certo momento, ser jornalista. Mas o destino lhe reservava outro caminho. O acaso a levou para os palcos. Regina formou-se pela EAD (Escola de Artes Dramáticas de São Paulo), interpretou grandes personagens, recebeu prêmios e encontrou no teatro a sua praia. Mesmo em São Paulo. No entanto, na história dos 42 anos de carreira da atriz, o acaso é mero coadjuvante. Quem a vê em cena, não tem dúvidas de que o talento e a vocação foram os seus principais norteadores. Em cartaz no Rio de Janeiro, no Sesc Ginástico, com a peça “Por um Fio” (adaptação do livro homônimo do seu marido Drauzio Varella, com quem é casada há 27 anos) – depois de temporadas de sucesso em Porto Alegre, em Belo Horizonte e em São Paulo –, Regina Braga conta ao Jornal de Teatro como é dividir com o público histórias tão pessoais. Fala, também, da experiência  de vida que “Por um Fio” a proporcionou e sobre a sua nova forma de lidar com o tempo, além de relembrar momentos da carreira (diz ter apreço por todas as personagens vividas) e demonstra insatisfação e desânimo com a Lei Rouanet. “É muita burocracia, isso não incentiva”, desabafa.

Jornal de Teatro – Quando surgiu o interesse pelas artes dramáticas?
Regina Braga – Desde pequena fiz teatro amador. Daí, fui morar em São Paulo e fiz um exame na EAD. Na época, fui na empolgação, pois todas as minhas amigas fizeram. Fui despretensiosamente e acabei sendo aprovada. Eu ainda não sabia muito o que queria fazer da vida, mas entrei na escola e fiquei. Acho que eu tinha jeito para a coisa.   

JT – Sua estreia profissional foi em “A Escola de Mulheres”, de Molière, dramaturgo responsável por inserir a mulher no teatro. Hoje, qual o papel da mulher no teatro? Ainda existe preconceito nesta área?
RB – As mulheres são importantíssimas. Atualmente, existem muito mais boas atrizes de teatro do que atores. O Brasil é farto de grandes atrizes. Sobre preconceito, nunca houve. O teatro é muito democrático.

JT – Você fazia parte do núcleo 2 do Teatro de Arena quando encenou o texto de Molière. Como foi fazer parte do Teatro de Arena?
RB – Eu fiz apenas  a peça “A Escola de Mulheres” com o núcleo. Viajei um pouco com ela e depois saí. Mas foi um momento importante para quem estava começando.

JT – Em 2001, você ganhou o APCA de melhor atriz com “Um Porto para Elisabeth Bishop”. Esta foi a sua melhor atuação?
RB – Ganhei muitos prêmios (nota da redação: entre estes, dois prêmios Molière; um por “Chiquinha Gonzaga, ó abre alas”; e outro por “Uma relação tão delicada”). Mas todos os meus personagens são especiais. Minha atuação em “Uma relação tão delicada” foi muito marcante. Gostei muito de encená-la, a Bishop também foi ótimo interpretar. Tenho carinho por tudo que faço. 

JT – Você interpretou mulheres de grande importância histórica, como Chiquinha Gonzaga. O que essas mulheres deixaram na mulher Regina Braga?
RB – Foi o máximo interpretá-las. São pessoas que vale a pena se aprofundar. Fiquei muito perto delas. Foi importantíssimo viver Bishop e Chiquinha para conhecer o universo carioca, pois as duas eram cariocas. Mulheres muito interessantes. Bishop, por exemplo, morou em Petrópolis. Fiquei muito íntima delas. Pelo fato de eu morar em São Paulo, fazê-las e conhecê-las melhor foi uma convivência enriquecedora. Pude, também, conhecer mais do Rio de Janeiro.

JT –  É mais difícil se consagrar no teatro ou na televisão?
RB –  Acredito que não há regra. Com cada pessoa é de um jeito. Comigo foi através do teatro. Comecei sem pretensões e dei muito certo. Quando voltei da Europa (n.r.:Regina fez estágios na França) fiz três peças e fui premiada. Isso me deu entrada no universo e me fortaleceu. Não parei mais. Não tinha muita vontade de ficar no teatro, mas aconteceu. O fato de morar em São Paulo dificultou a minha entrada na televisão. Na década de 1970, todas as emissoras estavam concentradas no Rio de Janeiro e eu não podia morar no Rio. Cheguei a receber convites na época, mas esse fator dificultou. Por outro lado, conquistei, em São Paulo, meu espaço no teatro.

JT –  Nos palcos, o que gostaria de fazer e que ainda não fez?
RB – Estou muito desanimada no teatro com a questão da produção. A burocracia hoje em dia é muito grande. Isso me cansa. Conseguir uma renovação na Lei Rouanet, por exemplo, é muito complicado. Isso desanima. Tenho vontade de fazer uma peça grega, mas, só de saber todo o trabalho que dá para conseguir verba, acabo broxando. Quando me vem uma vontade eu a abafo e penso duas vezes, pois dá muito trabalho e corre-se o risco de, quando estiver pronto, não conseguir patrocínio. Queria muito fazer a Bishop novamente, pois foi um sucesso. Mas tem muitos entraves para se renovar com a Rouanet. São várias etapas e critérios sem porquês.   

JT – O teatro é a sua praia? É o espaço que mais te completa como atriz?
RB –  É sim, mas não se trata de algo ideológico. Minha familiaridade com o teatro é muito antiga. Eu não tinha nenhuma pretensão de ser atriz, morava em uma cidadezinha do interior, perto do Mato Grosso, e ser artista não fazia parte do repertório de quem morava lá. As minhas amigas se preparavam para casar com fazendeiro. Eu queria ser jornalista, pois, na minha cabeça, poderia fazer coisas bacanas. Queria sair do interior, mas não tinha possibilidade. Mesmo assim, sempre fui ligada à arte. Dançava e atuava nas peças da escola. Quando me mudei para São Paulo queria apenas sair do interior. Em São Paulo, descobri a EAD e, conforme ficava lá, tinha a sensação de um mundo novo, de portas se abrindo. Fiquei amiga de atrizes e achei o ambiente de teatro muito bom, queria ficar perto desse universo. Eu achava os artistas muito bacanas. Isso me conduziu ao teatro. Daí, fui ficando e estou até hoje. E ainda continuo achando os artistas ótimos.

JT – Atuar em “Por um fio” é uma experiência muito pessoal, dolorida (Regina é casada com Drauzio Varella, autor do livro, há 27 anos)?
RB –  Tem muita proximidade. Afinal, no livro, sou citada algumas vezes. Mas isso não poderia ser levado para o palco. Não era o propósito. Foi muito complicado no começo.

JT – Durante a peça, é possível sentir uma carga de emoção diferente na sua atuação. Isso tem a ver com a sua proximidade com as histórias contadas, como a de Fernando, irmão do seu marido?
RB – Quando começamos os ensaios, eu não conseguia fazer a leitura do texto sem chorar. Mas, com o tempo, a direção me conduziu para um distanciamento (n.r.: a direção da peça é de Moacir Chaves). A partir daí, passei a me relacionar com o texto pelo ritmo, como se ele fosse uma canção. Hoje, depois das três temporadas, a emoção deixou de ser pessoal. Esse espetáculo me proporcionou a oportunidade de aprender a depurar meus sentimentos. Aprendi a ser mais racional. Outro detalhe importante é a minha relação com os gestos. Aprendi a não usar os gestos de forma banal, mecânica. Os gestos são muito marcantes em “Por um Fio”.

JT – Vocês pensaram em contar as outras histórias do livro, fazer roteiros diferentes para cada apresentação?
RB – Sim. Seria muito interessante, pois o livro tem outras histórias belíssimas. Mas não daria para inserir no meio da temporada, seria complicado. O tempo não permitiu também. Era uma ótima ideia.

JT – Tony Ramos classificou “Por um fio” como um espetáculo abençoado, por se tratar de um tema tão duro de forma terna e sem parecer piegas. Você tem medo da morte?
RB – Tenho sim. E quem no fundo não tem? A reflexão sobre isso ajuda você a melhorar, a ser mais objetivo em relação ao seu tempo presente. Quando você passa a enxergar limites no tempo você pensa melhor no que é fundamental para você. A valorização da vida e da saúde bateu muito forte para mim. Na verdade, ninguém está completamente preparado para a morte, mas para a vida, de certa forma, sim. A peça deixa aquela obrigação de ir direto ao que é importante na vida, ir de encontro ao fundamental.

JT –  Quais são seus próximos projetos?
RB – Tenho alguns projetos em mente sim, mas prefiro não falar antes para não criar muitas expectativas. Mas volto a dizer, a realidade burocrática atrapalha, cansa. Penso muito antes de iniciar um novo projeto por conta disso. Talvez este seja um bom momento para dar um tempo. Quem sabe fazer um trabalho na televisão?

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O que pode mais desejar um homem já consagrado naquilo que ama? O que pode mais desejar um ator com recordes de público na sua carreira? Foram basicamente estas perguntas que logo me surgiram quando eu soube que entrevistaria Marcos Caruso. O que seriam, a princípio, duas páginas dedicadas a ele, se tornaram três – por conta da simpatia, da disponibilidade e, mais do que tudo, da coragem deste homem do teatro em abrir o seu coração. Nesta longa entrevista, o ator e dramaturgo fala, bem à vontade, dos mais diversos temas comuns a todos os cidadãos brasileiros: da era das “celebridades”, do consumismo desenfreado, de uma sociedade aprisionada e, é claro, da política e da inércia da população frente ao seu cenário atual. Como não poderia deixar de ser, Marcos Caruso fala, também, do teatro brasileiro: disserta sobre seus 36 anos de profissão, seus grandes sucessos (como “Trair e Coçar, é Só Começar”), suas parcerias, a questão do patrocínio teatral, e “As Pontes de Madison”, espetáculo que protagoniza atualmente ao lado de sua grande companheira (e ex-mulher) Jussara Freire.

Jornal de Teatro – Como e quando foi seu primeiro contato com o teatro?
Marcos Caruso – Quando ainda era criança. Minha mãe morreu quando eu tinha dez dias de vida e fui criado, em parte, pela a minha avó, que me deu um boneco de fantoche. Desde aquele momento, comecei a criar historinhas, a fazer o meu teatrinho.

JT – Você é formado em direito. Por que essa escolha? Realmente pensava em trabalhar na área?
MC – Meu pai me aconselhou a ter um diploma, caso minha vida de ator não desse certo. Então, escolhi direito como o meu plano B. Imaginei que com o direito eu poderia, no mínimo, representar nos tribunais, acusando ou defendendo um réu.

JT – E como foi a reação da sua família?
MC – Meu pai reagiu numa boa. Ele viu que era aquilo que eu realmente queria fazer e me apoiou. Não houve problema algum.

JT – Muita gente costuma criticar a nova geração de atores, já que muitos “caem de paraquedas” na profissão como “celebridades”. Qual a sua opinião a respeito dessa nova geração?
MC – É exatamente contrária. As pessoas que “caem de paraquedas” também são muito bem-vindas. Quem não tem talento não resiste ao teatro. A seleção natural vai automaticamente se encarregar de cortar do meio aquele que não tem talento. Veja, por exemplo, esse talento que é a Grazi Massafera. Eu só acho uma pena porque, muitas vezes, gente de talento não tem ainda o espaço que merece.

JT – Hoje em dia está mais fácil ou mais difícil se produzir uma peça em relação à década de 1970, quando você começou?
MC – Está mais difícil. Os donos de teatro cobram preços altíssimos, os jornais cobram fortunas para divulgar o nosso trabalho e os próprios técnicos e profissionais da área pedem valores altíssimos. Por quê? Porque ninguém produz sem patrocínio. Então, na medida que se tem um patrocínio, todo mundo eleva o seu preço e se torna impossível fazer uma produção sem patrocínio hoje em dia.

JT – Então, como você tem agido?
MC – Eu sou uma exceção. Tenho grandes sucessos na minha carreira. Tenho três peças de seis anos em cartaz, tenho duas peças de sete anos em cartaz, tenho uma peça de 23 anos. Eu nunca, na minha vida profissional, fiquei no teatro menos de nove meses em cartaz. Eu sempre fui um ator de muita sorte por ter feito muito sucesso. De todas as peças que fiz, que foram mais de 30, tive patrocínio em quatro (foram essas últimas que fiz). Eu sempre fui um homem que produzi com o meu dinheiro, produzia com o dinheiro que eu ganhava do teatro. Eu investia no teatro aquilo que eu recebia do teatro. E não só eu, muita gente fez isso: Antônio Fagundes, Marco Nanini, Paulo Goulart, Othon Bastos, Eva Wilma, Raul Cortez, Irene Ravache, Juca de Oliveira... Muita gente fez isso durante muitos anos. Estiveram sempre em cartaz colocando dinheiro do próprio bolso no teatro. Hoje em dia mudou, pois as regras mudaram. E mudaram, acho, para pior.

JT – Falta incentivo público? Como você vê as iniciativas do poder público para o teatro?
MC – Existem algumas coisas interessantes. Algumas leis que são interessantes, como a lei de fomento da Prefeitura de São Paulo. Mas acho que o teatro tem de ser patrocinado de uma outra forma, embora isso resulte em uma discussão enorme. Acho que, hoje, está mais difícil. Em “Operação Abafa”, que ficou quase dois anos e três meses em cartaz, produzimos com R$ 50 mil, então é possível. Em São Paulo ainda existem muitos grupos que conseguem sobreviver assim, mas acho que o dinheiro tem sido usado para poucos e, muitas vezes, dado àqueles que não precisam.

JT – Acredita que hoje em dia a pessoa precisa ter uma imagem atrelada à TV para conseguir patrocínio?
MC – O patrocinador exige que essa pessoa tenha uma imagem atrelada à TV. Isso é injusto para com a arte. O Mateus Nachtergaele, antes de ter ido para a Globo, fez “Livro de Jó”, um dos maiores sucessos do teatro brasileiro, e não tinha patrocínio nenhum. É um cara que hoje talvez tenha porque está na Globo. Mas, independentemente de estar com a cara na Globo, ele tem talento, só para dar um exemplo. Existem poucas empresas com sensibilidade de apoiar verdadeiramente o talento em todos os níveis – um ator, um autor ou um diretor – sem que não tenham passado pela televisão. Eu entendo que para a empresa o retorno para o seu produto deva ser maior (com ator na TV), mas ninguém garante que um ator que está na televisão leve mais público do que um que não está.

JT – Baseado me que você diz isso?
MC – Sou um exemplo disso. Tenho 36 anos de profissão e seis anos de Rede Globo. Os outros 30 anos anteriores eu sobrevivi – e muito bem – do teatro. Sobrevivi brilhantemente. Sou um nome conhecido em São Paulo devido ao que eu faço no teatro. Esses últimos seis anos da Rede Globo me deram uma projeção nacional, maior visibilidade, mas eu nunca precisei da minha imagem na televisão para levar público ao teatro e acho que poucas pessoas precisaram, graças a Deus. Hoje a mentalidade passa a ser mais consumista. Vivemos em um mundo mais capitalista do que nunca, no qual o seu produto tem que ter uma cara e, se você puder valorizar o seu produto com uma cara mais vendável, melhor. Nós não gostaríamos que fosse assim, mas as empresas praticamente exigem que alguém do seu elenco esteja na televisão. Pelo lado do mercado eu entendo, mas não entendo pelo lado da arte.

JT – “Sua Excelência, o Candidato”, de 1985, apesar de cômico, não deixa de ser uma crítica aos políticos, já naquela época. Como você enxerga a política hoje em dia? Mudou muita coisa da década de 1980 para cá?
MC – Mudou. Hoje podemos falar abertamente, vivemos uma democracia mais plena, podemos saber das falcatruas, das injustiças e dos resultados das CPIs que, na maioria das vezes, não são aquilo que a gente gostaria que fosse, mas, de qualquer forma, você tem abertura e liberdade. Acho que isso nós ganhamos. Isso o povo brasileiro conquistou: essa abertura para você falar livremente aquilo que pensa a respeito, coisa que não se falava até 1984.

JT – Você enxerga a peça como pioneira nesse sentido?
MC – “O Candidato” foi a primeira peça a falar abertamente de política e a colocar o dedo na ferida dos problemas políticos do País pós-abertura democrática. Tanto que nós ganhamos o Prêmio Molière daquele ano por conta da contundência daquele espetáculo, um prêmio que nunca tinha sido dado para autores de comédia. Depois disso, a Jandira Martini e eu escrevemos várias outras peças e colocamos o dedo na ferida de problemas, além de políticos, sociais e econômicos do País. Assim foi “Jogo de Cintura” (1989), “Porca Miséria” (1993), e, recentemente, “Operação Abafa” (2004), onde nos aproveitamos de forma oportuna um momento político para, através da comédia, falarmos da tragédia que era aquele momento em que vivíamos.

JT – E como você avalia o espaço atualmente para se falar de política no teatro?
MC – Acho que tem diminuído. Como autor de comédia de costumes e como autor de um teatro político, que sou há mais de 25 anos, acho que está sumindo porque a internet é muito rápida. Você se posiciona imediatamente diante de um site, de um blog, de uma notícia que você lê... Coisa que não acontecia antes. Se você fizer um texto político no Brasil de hoje, onde o presidente da República tem 80% de aprovação, e não pegar a veia correta, você poderá ser chamado de ingênuo ou panfletário.

JT – Você vê o público um pouco desinteressado com o tema político?
MC – Totalmente. Estamos vivendo em um mundo onde as pessoas se isolaram. Não estou dizendo que sou contra ou a favor, mas a realidade de 2009 é que você se fecha em sua casa com grades, se fecha em seu carro com vidros elétricos, se fecha em seu mundo com seu celular. Quando você não quer conversar com alguém, você põe o celular na orelha, finge que está conversando com uma pessoa e se fecha em seu mundo. Seu escritório vira uma pastinha de computador. Então o ser humano foi se isolando pelas circunstâncias do momento, da vida, do meio em que estamos vivendo, da evolução tecnológica. O ser humano se isolou de tal forma que não consegue mais agir em grupo, agir coletivamente. Você, nos anos 1960, agia coletivamente, ia para as ruas. Nos anos 1970 e 1980, que foram anos de chumbo, você, de certa forma, agia coletivamente, se reunia clandestinamente ou, através de metáforas, fazia com que o seu discurso chegasse aos ouvidos das pessoas. Hoje estamos isolados.

JT – Diante da atual conjuntura, você já pensa em algum tema, algum texto político?
MC – Eu não sei qual será o próximo tema político que a Jandira e eu abraçaremos. Vamos esperar a eleição de 2010.
 
JT – Gostaria que você comentasse também sobre “Trair e Coçar é Só Começar”. Você imaginava, enquanto escrevia a peça, que ela poderia chegar a ser recorde absoluto de público na história do teatro brasileiro?
MC – Jamais. Acho que ninguém pensa em fazer um sucesso tão longo e, ao que me parece, eterno, porque não tem sinais de que vá terminar tão cedo. Claro que, quando eu escrevi, tinha certeza de que estava escrevendo uma comédia matematicamente feita para fazer rir de 60 em 60 segundos. É um vaudeville e você não tem como errar. É feito para o público que quer apenas rir, quer apenas o divertimento. Que a peça faria sucesso eu tinha certeza enquanto eu estava escrevendo.

JT – E por que você acha que a peça fez esse sucesso tão estrondoso?
MC – O sucesso é resultado de uma união de qualidades: um elenco estrelar e de muito talento, como foi o da estreia, um teatro bem localizado, uma bela divulgação, uma direção boa, com aquele texto... Não tem por que ela não ficar muito tempo em cartaz. Agora, um, dois, três anos, tudo bem. Quatro você fala: ‘Nossa!’. Cinco fala: ‘Ainda?’. Seis, sete, oito, fala: ‘Mas, meu Deus’. Depois de dez anos eu fui verificar, fazer uma pesquisa e descobri que a peça já estava quase chegando em sua segunda geração de espectadores. Chegou a um ponto em que, em uma roda de quatro pessoas, três já haviam assistido e a quarta, como ficava sem assunto, meio que se obrigava a ir. O “Trair e Coçar” foi visto por seis milhões de pessoas em 23 anos. Isso é uma loucura. E não é nada perto do que ele atingiria se ele passasse na televisão: seria visto por 80, 150 milhões de pessoas em uma só noite. A peça praticamente não viajou o Brasil. Ainda tem uma longa caminhada. Então, acho que vou embora um dia e “Trair e Coçar” fica.  

JT – Você sempre se dá muito bem quando trabalha com mulheres (tem parceria autoral de mais de 20 anos com Jandira Martini, foi casado durante 20 anos com  Jussara Freire e, como agora em “Pontes de Madison”, sempre se destacou no palco ao lado dela e, na televisão, formou dupla memorável com a Lilia Cabral em “Páginas da Vida”). Você tem mais facilidade em trabalhar com mulheres? Por que você acha que isso acontece?
MC – Você está me chamando a atenção agora para isso. Eu não tenho parcerias masculinas mesmo. Fiquei cinco anos e meio com a Irene Ravache, em “Intimidade Indecente”, trabalhei durante três anos com a Regina Duarte, em “Honra”, além de outras mulheres que participaram da minha trajetória. Eu não sei. Eu realmente nunca fiz um trabalho de dois homens no palco. Acho que é destino. 

JT – E o fato de dividir cena com alguém que você foi casado durante 20 anos? A intimidade entre os atores facilita?
MC – É um presente. Sem dúvida alguma facilita. Primeiro porque nós já temos uma intimidade cênica e, obviamente, para esta peça (“Pontes de Madison”), onde o tema central é uma história de amor, é claro que você ter uma intimidade afetiva e carnal – eu sei onde pegar na Jussara, não precisamos ensaiar – só ajuda. E nós somos muito amigos. Fomos casados durante 20 anos, estamos separados há 15, mas somos grandes amigos, não ficamos mais de uma semana sem nos falar. É muito prazeroso poder dividir o palco em uma história com um tema como este, com uma mulher que eu amei e que ainda amo como minha ex-mulher e colocar isso para fora em cena. Torna-se realmente mais fácil.
 
JT – Como está sendo a recepção do público a “Pontes de Madison”?
MC – Impressionante. O público mais velho se emociona porque estamos contando uma história de amor na maturidade. O público com mais de 40 anos se emociona muito e o público mais jovem, de 20 a 35, reflete sobre esse amor que acontece uma vez só na vida, essa coisa única que, se você perder esse bonde, não encontra outro. Voltando ao tema da superficialidade em que vivemos, o beijante e o ficante são termos mais adequados a essa geração. E uma geração que vai ver um espetáculo onde ninguém só beija, só fica, reflete até que ponto ser beijante ou ser ficante hoje em dia é bom e até que ponto quando chegar um amor desse não vai passar por uma revisão de suas necessidades amorosas, físicas. A peça é um grande sucesso.

JT – Você acredita em finais felizes para paixões avassaladoras?
MC – Eu acho que a gente tem sempre que acreditar, porque a gente sempre espera que o nosso final seja feliz. Somos criados com finais felizes. Começa-se a história com “Era uma vez...” e termina-se sempre com “E foram felizes para sempre”. De repente a gente vê que a vida não é um sonho, não é um conto de fadas e que os finais não são necessariamente felizes, ao contrário, a maioria deles é infeliz.

JT – Já se viu como o Robert, tendo uma paixão avassaladora?
MC – Já me vi uma vez sim, mas ela não era casada (risos). Não dá para fazer um paralelo.

JT – Vocês pretendem viajar com a peça no ano que vem?
MC – Ficamos até 20 de dezembro em São Paulo e a ideia é ir para o Rio depois, fazer algumas capitais.

JT – Pretende se dedicar também à TV, ao cinema?
MC – Eu devo fazer a próxima novela das sete “Bom Dia Frankenstein”, estou escrevendo uma minissérie com a Jandira Martini, que ainda vamos apresentar à Globo, e tentando esboçar ainda um texto de teatro para 2011 ou 2012.

Sobre a peça “Pontes de Madison”:

As “Pontes de Madison”, best seller de Robert James Waller, em cartaz no Teatro Renaissance, até 20 de dezembro, trata da história de amor entre Francesca Johnson (Jussara Freire), uma mulher casada, e Robert Kincaid (Marcos Caruso), fotógrafo da revista “National Geographic” que vai até o condado de Madison, em Iowa (EUA), registrar imagens das famosas pontes cobertas. Em apenas quatro dias, Robert e Francesca passam por uma avassaladora paixão e depois vivem um longo desencontro, preenchido por raro e intenso amor. A partir deste simples encontro suas vidas se modificarão para sempre. É um romance com toques de humor. A história é contada em flashbacks, a partir da leitura dos diários de Francesca,, que revela essa passagem de sua vida, encontrados por seus filhos Carolyne (Luciene Adami) e Michael (Paulo Coronato) depois de sua morte. O drama simples e tocante discute profundos valores humanos pouco utilizados nos dias de hoje.

Ficha Técnica:

Autor: Robert James Waller
Tradução e Adaptação: Alexandre Tenório
Direção: Regina Galdino
Elenco: Marcos Caruso como Robert Kincaid, Jussara Freire como Francesca Johnson, Luciene Adami como Caroline Johnson e Paulo Coronato como Michael Johnson
Cenário: Marco Lima
Figurinos e Visagismo: Fábio Namatame
Iluminação: Ney Bonfante

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Breno Ketzer Saul, coordenador de artes cênicas da Secretaria Municipal de Cultura, sobe ao palco e fala sobre as ações na cidade

Por Adriana Machado

Na coordenação de artes cênicas da Secretaria Municipal de Cultura desde fevereiro deste ano, Breno Ketzer Saul tem uma relação de duas décadas com o teatro. Começou na iluminação, fez pesquisas corporais no treinamento do ator e trabalhou com importantes encenadores gaúchos. No serviço público, ele salienta a importância do desafio. “Não é o cargo que me interessa, o que me interessa é o conteúdo”, diz. Em entrevista ao Jornal de Teatro, Breno falou sobre a instituição e a permanência de políticas e projetos desenvolvidos para a classe em Porto Alegre.

Jornal de Teatro – Quais ações a Secretaria Municipal de Cultura tem feito a favor do teatro?
Breno Ketzer Saul – Temos vários projetos na área do teatro em Porto Alegre. A coordenação de artes cênicas desenvolve, por exemplo, o Prêmio de Dramaturgia Carlos Carvalho, que incentiva a produção de textos teatrais; o Prêmio Açorianos e Tibicuera de Teatro Infantil, que valoriza os artistas locais. Além disso, sustenta três teatros (o Renascença, o Teatro de Câmara e a Sala Álvaro Moreyra), subsidiados e responsáveis por dar condições razoáveis para os atores desenvolverem seus trabalhos. Nestes espaços são disponibilizados iluminação, sonorização e equipamentos básicos. Os preços são bem razoáveis e cobradas taxas mínimas, que variam entre R$ 45 e R$ 70 por dia. O edital de ocupação das casas é feito através de um concurso público, no primeiro e no segundo semestre.

Jornal de Teatro – Há, também, o Funproarte, certo?
BKS – Certo. Trata-se de um projeto de fomento de incentivo à produção artística, que patrocina espetáculos, também por meio de concurso público, duas vezes ao ano. Outro projeto de ocupação de espaço é o Usina das Artes, realizado na Usina do Gasômetro, onde os grupos estão autorizados a utilizar uma sala por um ano. Ali, funcionará o território cultural e de criação destes artistas. O local também pode ser usado para guardar os materiais, como base de operação, de apresentação e de ensaio. A secretaria possui, ainda, o projeto Novas Caras, de incentivo a novos talentos surgidos na cena. Eles recebem ajuda de custo e se apresentam em determinadas datas nos teatros municipais. Fizemos homenagens, uma delas a Augusto Boal, e faremos leituras dramáticas dos textos da gaúcha Vera Karam. 

JT –  O Porto Alegre em Cena também está inserido nestas ações?
BKS – Sim. É um projeto que já tem 16 anos, coordenado por Luciano Alabarse. Traz produções mundialmente importantes de teatro, de dança e de música aos palcos de Porto Alegre, o que contribui para desenvolver as nossas artes cênicas, o nosso entendimento da arte. É importante ressaltar a qualidade que o Porto Alegre em Cena agregou aos nossos espetáculos e a nossa subjetividade. Algo importante para os nossos artistas, para os técnicos e para a comunidade também.
 
JT – E como funciona a descentralização dos espetáculos em Porto Alegre?
BKS –  A coordenação de artes cênicas fez uma mostra de teatro fora do eixo, com espetáculos montados na periferia da cidade. Percebemos que existe uma produção muito centralizada e precisamos mostrar o que é feito em termos de artes cênicas nos bairros mais afastados das oportunidades. A descentralização cultural promove oficinas de música, de teatro, de artes plásticas, de cinema e de dança. Acho esta ação importante para as comunidades que vão desenvolver trabalhos e se colocar de forma ativa no processo de criação. As pessoas não podem se colocar só como consumidoras de cultura, o ideal é que elas também produzam cultura. Mas veja só, nossa ideia não é distribuir cultura, mas fomentá-la.

JT – Qual a principal demanda da classe em Porto Alegre?       
BKS – A classe precisa de mais espaços para apresentações. A gente percebe isto pela enorme procura dos teatros municipais. A secretaria está construindo o Elis Regina, que ficará pronto em 2010. Outra demanda é o investimento nas produções artísticas. Um passo importante foi a aprovação da Lei de Fomento de Teatro e Dança, dia 29 de junho, na câmara de Porto Alegre. Isto é um incentivo importante e diferente, que não vai só incentivar produções pontuais, mas todo o processo criativo. Os grupos têm de ter recursos para produzir e sobreviver ao longo do ano.

JT – E como o fomento poderá estimular o trabalho destes grupos?
BKS – Eu acho que existe o teatro comercial, que consegue sobreviver de uma relação bem clara entre custo e benefício, e o teatro onde a preocupação maior não é o lucro por si só. Esta forma de arte deve ser incentivada principalmente pelo Estado. O fomento é fundamental para dar condições aos artistas de produzir. Condições financeiras e físicas. Hoje, as pessoas que trabalham com o teatro têm de fazer muitas atividades para sobreviver: dar aulas e ter outros empregos. Aliás, esta é uma realidade brasileira e mundial. Com recursos, a comunidade artística poderá se estruturar melhor, receber um salário, ganhar por ensaio e ter transporte. Claro, ninguém ficará rico com isto, mas são condições necessárias. As pessoas trabalham muito por amor ao teatro. Se colocarmos na ponta do lápis, elas não ganham pela dedicação, ou ganham muito pouco. O fomento protege todo o ciclo de criação e não um projeto pontual.  
 
JT – Com a sua experiência no meio, como você definiria o teatro gaúcho?
BKS – O teatro gaúcho não tem um traço específico. Acho que tem altos e baixos, excelentes espetáculos, e outros não tão bons. Temos grupos importantes, com trabalhos consistentes ao longo do tempo, e aquelas produções esporádicas. Enfrentamos muitas dificuldades financeiras, que determinam a forma das suas produções. Nós estamos muito atrelados ao modelo voltado para pessoas globais, muito influenciado pela telenovela. Mas também temos criadores importantes na cena. Alterna bons momentos com maus momentos. E os maus momentos podem ser melhorados com o incentivo, a estrutura e o investimento em espaços e recursos.

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