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Por Rubens Barizon(Texto incrementado)
Da Redação JT



Texto parte de referências a “Bartleby, o escriturário”, de Hermann Melville, e “Crime e Castigo” de Dostoiévsky, para criar uma trama, que começa quando um pastor fica obcecado pela passagem bíblica de Mateus e deseja formar uma doutrina própria. Por esta competência, Alexandre Dal Farra venceu o 25º prêmio Shell de melhor autor na edição paulistana com o texto de "Mateus, 10". A entrega aconteceu ontem, dia 12 de março, na Estação São Paulo.

“Mateus 10” acompanha de perto as casas pobres e a Igreja evangélica, onde o pastor Otávio lança sua rede para a captura de almas e acaba por perder a própria alma, corroída por dúvidas e fragmentos de verdade, com os quais o pastor não pode lidar.

A cena central da peça é um churrasco na casa de um novo rico brasileiro, e sintetiza de maneira nítida e esculhambada o existente ao redor, mas sem ser dito por ninguém, já que o império está satisfeito com a cultura de consumo e pouca autoconsciência. 

“Mateus 10” demonstra que é possível falar do nosso tempo com os tons vivos da língua portuguesa, em oposição a todo movimento que o teatro mimetiza, de modo farsesco, a própria sociedade do espetáculo.

 A encenação levanta questões como a culpa, a alienação e a fé, por meio da trajetória de um pastor que leva a sério demais o que ele mesmo prega.  Durante a peça, poucos elementos cênicos valorizam a interpretação dos atores e o texto como sendo os principais motores. “O espectador assiste a peça se desenrolar em torno de si, nos pequenos espaços cênicos espalhados pela sala”, explica o codiretor João Otávio.

Otávio é um pastor em ascensão que entra em crise, quando se apega de forma quase obsessiva a uma passagem da bíblia em que Jesus renega sua família, mãe e irmãos, em função dos seus seguidores e discípulos. A partir de então, Otávio passa a desenvolver e a pregar uma nova doutrina. O desejo de negar o conhecido em função do novo, que o leva à beira da loucura.

“A peça trata sobre o processo de decisão e da formulação do pensamento,  até o ponto que o imprevisível pode acontecer”, analisa Alexandre Dal Farra, autor da peça e também diretor. “Nada se transforma, não por conta de uma força inexplicável, mas porque simplesmente algumas pessoas não permitem. O novo, seja em um sentido positivo ou negativo, simplesmente não é aceito,” conclui Dal Farra.

Sexto texto de Alexandre Dal Farra, quinto escrito e montado pelo Tablado de Arruar, consolida o projeto de pesquisa do grupo para a criação de uma dramaturgia e interpretação que aliam a pesquisa de linguagem ao pensamento político e social.



Fonte Tablado de Arruar