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Desde o dia em que a cidade do Rio de Janeiro foi eleita sede dos Jogos Olímpicos de 2016, tenho ouvido muito certa palavra sobre a qual nunca dediquei mais que alguns segundos de atenção: legado. De imediato, ocorreu-me a célebre frase de Machado de Assis, em Dom Casmurro: “Não tive filhos, não transmiti a nenhuma criatura o legado de nossa miséria”.

Eu, que vou passar por esta vida sem herdeiros, às vezes me pegava pensando sobre o que seriam dos meus livros e discos (pobre herança!) no dia da minha morte – se é que nesse tempo ainda se ouvirão discos ou se lerão livros. Acontece que, agora, tenho refletido mais sobre as nossas heranças culturais, aquelas que recebi e as que deixarei como legado às futuras gerações. Assunto cheio de sutilezas históricas e nuances de vaidade, ainda mais ao abordar uma arte como o teatro, supostamente efêmera.
Não é novidade que o teatro tem a explosão do acontecimento, a surpresa da eventualidade, a costumeira fugacidade de tudo que é momentâneo. Exige atenção imediata. Possui uma urgência intrínseca menos percebida em outras artes.
Telas e esculturas continuarão nos corredores de museus e galerias por séculos, talvez. Sinfonias e até balés continuarão a ser repetidos preservando o gênio de seus criadores. Do mesmo modo que fotografias, monumentos e projetos arquitetônicos continuam alvo de preservação e até reprodução mundo afora. Quanto ao teatro, o muito que se pode esperar é que estudantes leiam as obras de mestres como Nelson Rodrigues, Lorca ou Shakespeare. E, com sorte, vejam algumas dessas obras encenadas pela ótica de seus contemporâneos – o que pode ser para o bem e para o mal.
Mas aquela encenação específica, o trabalho daquele determinado artista, sua visão de beleza e dor, suas reflexões sobre a obra literária (afinal, dramaturgia é literatura e não teatro) perdem-se quando o artista se vai. Felizmente, há os registros. E se os há, é preciso que sejam preservados, vistos, lidos, divulgados. Em tempos em que não mais se acorre aos livros e sim ao Google ou ao Youtube, curiosamente ainda há um mercado para livros de arte, inclusive teatro.
Funcionam como peças de um quebra-cabeça a serem colocadas lado a lado, formando o quadro do que foi o teatro do nosso tempo. É possível conhecer a arte de Gianni Ratto, José de Anchieta Costa, Cyro Del Nero. Alguns de nossos grandes atores podem ser vistos pelas lentes de Vânia Toledo e Lenise Pinheiro. Isso sem falar em pensadores que exerceram a crítica como forma de reflexão e cuja linhagem começa com Machado de Assis e se estende até nomes como Décio de Almeida Prado, Yan Michalski, Bárbara Heliodora e Alberto Guzik. Portanto, corramos às livrarias.
Mas e como fica o trabalho do ator? Esta sombra que desaparece no entardecer de seu tempo? Ele mesmo, veículo primeiro e último do teatro, sem o qual esta arte não se faz, é espectro que se esvai de nossos olhos tão logo o pano cai. De nossos atores e atrizes ficam as fotos, os cartazes e os programas das peças. Sobram seus poucos registros em cinema e televisão, que nos dão tão somente a pálida ideia de sua genialidade.
E, nestes tempos de marketing cultural em que cinemas e teatros levam nomes de instituições financeiras pouco preocupadas com a arte e mais com a isenção de impostos, mídia e decorrente retorno de imagem, com alguma sorte os nomes de nossos grandes artistas passarão a apadrinhar algum espaço de espetáculos. No futuro, poucos saberão quem foram ou que rosto tiveram.
A palavra talento tem sua origem no dinheiro. E é, de fato, nosso maior bem. Recebemos uma herança fabulosa, temos um legado considerável a deixar, vivemos num tempo em que isso é possível e temos meios para tal. Precisamos, portanto, apenas ensinar os jovens a preservar essa riqueza, fazendo-a prosperar, crescer e multiplicar no exercício da arte. Para que aos filhos de todos nós não lhes seja deixado o legado miserável que ora se apresenta.
* Gerson Steves tem 25 anos de atividades teatrais na cidade de São Paulo, tendo atuado como diretor, dramaturgo, ator, produtor e professor. Não tem filhos, mas adotou os inúmeros alunos que teve como tal.

* Gerson Steves tem 25 anos de atividades teatrais na cidade de São Paulo, tendo atuado como diretor, dramaturgo, ator, produtor e professor. Tem tuitado à beça ultimamente (www.gersonsteves.com.br).