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Gerson Esteves

Ando maluco por (e com) sites de relacionamento tipo Facebook ou Twitter. São ferramentas que aproximam pessoas, valorizam talentos, ajudam a divulgar trabalhos e a promover ideias – para o bem e para o mal. O sonoplasta Fê Pinatti me apresentou a blogosfera – espécie de universo paralelo das ideias, onde todo mundo escreve sobre tudo, especialmente os próprios umbigos.
Nessa toada, passo horas dos meus dias lendo o que dizem os colegas, vendo o que estão aprontando, articulando pensamentos banais sobre o cotidiano: qual o papel do teatro nestes tempos de virtualidade? Qual sua função na era multimeios, em um começo de século em que, como preconizou Platão, nos afastamos da vida para fixar os olhos nas sombras do fundo da caverna? Mas, se tudo são sombras nas cavernas virtuais, cadê a vida? E o teatro? Afinal, para o filósofo grego, a arte era também uma espécie de fundo de caverna. Aviso de antemão: não tenho as respostas.
Luz e sombra. Vida e arte. Verdades e mentiras. Virtudes e pecados. Por dias, estes têm sido os binômios a ocupar minha cabeça em marteladas de estética e ética. Ary França (grande amigo e comediante, não necessariamente nessa ordem) disse no Facebook que eu precisava “fazer cursinho para ateu e largar essa mania de pecado”. Mas o que é esta nossa arte senão uma arena pública onde praticamos uma espécie de religiosidade pagã, na qual exorcizamos demônios, desfilamos um sem-fim de pecados e culpas dostoievskiamente expostas como feridas abertas?
Em “Odisseia do Teatro Brasileiro” – depoimentos compilados por Silvana Garcia – Antunes Filho propõe a reflexão: “como podemos reelaborar o futuro?” E responde: “precisamos enfrentar essa nova realidade que está aí... largar as besteiras do passado, estudar e tocar o barco.” Tomo a liberdade de emendar outra analogia: precisamos virar o leme.
Alguém disse que, no futuro, talvez a única possibilidade que as pessoas tenham de estar unidas em grupo e partilhar algo que as emocione seja na arena. Temos de rever a ideia da arena futura. Reavaliar o que moverá as pessoas até ela, arrancando-as dos chats, fóruns e eme-esse-enes da vida. São tempos de novos profetas. Em que milhares falam para milhões num clique. Vivemos em constante estado de atenção: checamos fontes, avaliamos consistências, nos defendemos de armadilhas. E, ao mesmo tempo, perdemos o foco do que de fato importa: tocar o barco para onde? Virar o leme em que direção?
Tenho patinado nessa miscelânea de assuntos. Noutro dia, fui assistir ao Blue Men Group e ouvi de um amigo que o espetáculo era datado. O que é ser datado? O que vi foi uma divertida crítica aos meios de comunicação, à manipulação das massas, à celebrização do anonimato. Nada mais atual. Será que é porque o frisson dos anos 1990 já passou e eles agora são espécie de franchising viajando pelo planeta? Ou porque meu amigo seja mais antenado que a maioria e o resultado lhe soe déja-vu. Mesmo assim é efervescente e instigante.
Do mesmo modo que, para dizer o mínimo, é revigorante rever as coreografias do Wuppertaler Tanztheater. “Café Müller”, em que se vê com nitidez a fusão entre dança e teatro, é de 1978. Antes disso, Pina fizera o visceral e poético Sagração da Primavera (‘75). Alguém ousaria dizê-las datadas? Não seria egoísmo dos construtores de um pensamento contemporâneo privar as novas gerações de ver estas obras, sob o rótulo de serem datadas? Ao contrário: são modelos de como tocar o barco e virar o leme.
Retomo o binômio verdade-mentira, tão vivo no teatro, e recorro à dramaturgia Rodrigueana. São textos em que nada é verdade, nada é fato. Há o recurso do flash-back, da narrativa de um terceiro sobre algo vivido pelos protagonistas, o olhar da imprensa, um diário esquecido ou uma gravação suicida. São pontos-de-vista. A verdade objetiva é o que menos importa.
O teatro sempre enfrentou o desafio de retratar o homem em seu tempo. E nos habituamos a pensar que o bom teatro é o que permanece vivo para além do seu tempo. Talvez o grande desafio em nossos dias seja olhar para a verdade em um mundo em que cada vez mais o que importa é o ponto-de-vista.
Para mim, tempo e espaço têm perdido a importância. Ainda mais após ter visto “O Fantástico Reparador de Feridas”, de Brian Friel, que celebra os 50 anos de carreira de um dos nossos grandes atores, Walter Breda (bem acompanhado por Mariana Muniz e Rubens Caribé). Os três, em cena, por meio de relatos muito particulares, constroem – ou desconstroem – uma verdade que jamais existirá, devida sua distância no tempo e no espaço. Além de reflexão sobre a verdade, é metáfora para o fazer artístico que merece ser vista, refletida e preservada como norte aos que desejam tocar o barco e virar o leme.

* Gerson Steves tem 25 anos de atividades teatrais na cidade de São Paulo, tendo atuado como diretor, dramaturgo, ator, produtor e professor. E tem tuitado à beça ultimamente (www.gersonsteves.com.br).