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Por Leonardo Serafim

O adjetivo polivalente cai como uma luva na hora de descrever Luiz Paulo Vasconcellos. Em 50 anos de carreira, completados em 2009, não existe área no cenário teatral em que ele não tenha emprestado seu talento. Escritor, diretor, ator, professor, ensaísta e, até mesmo, bilheteiro são algumas das versatilidades que ajudam a traçar a personalidade e o talento do artista, um dos responsáveis pelo crescimento do teatro gaúcho. Nascido na cidade do Rio de Janeiro, em 1941, Luiz Paulo Vasconcellos conheceu o mundo das artes cênicas aos 18 anos, quando um amigo o convidou para participar de um espetáculo amador. Sua história nos palcos profissionais começou oito anos depois. Mesmo sem o apoio total do pai, um homem singular, que amava a música erudita, mas repudiava a dramaturgia, Luiz Paulo resolveu se aventurar no Conservatório Nacional de Teatro, cursando direção teatral. Em sua primeira aparição como ator, na obra “Pic-Nic no Front”, de Fernando Arrabal, a genialidade, que tanto marca sua carreira, ficou em segundo plano, sendo dominada pelo nervosismo, que culminou no esquecimento de sua única fala. “Fazia o papel de um enfermeiro que recolhia feridos e cadáveres depois das batalhas. No dia da estreia, não consegui me lembrar no meu texto” conta o mestre. Após dirigir o espetáculo “Mãe Coragem”, de Bertolt Brecht, como trabalho final do curso de gradução, Luiz Paulo Vasconcellos recebeu uma chance que mudaria a sua carreira, transformando-o em um importante nome do teatro gaúcho. Precisando de um diretor para comandar um grupo de jovens atores, Gerd Bornheim, então chefe do Curso de Arte Dramática da UFRGS (Universidade Federal do Rio Grande do Sul) convidou Luiz Paulo para tal missão. Admirador das obras do dramaturgo alemão Brecht, que sempre usou como temática a degradação humana e a luta pela emancipação social do homem, Luiz Paulo resolveu, novamente, encenar uma peça do artista. E a escolha não poderia ser mais acertada. “Vim e dirigi ‘A Ópera dos Três Vinténs’, que ficou três meses em cartaz com casa cheia e foi o maior sucesso que Porto Alegre jamais havia visto com uma produção local. Foi incrível. Como era um trabalho acadêmico, pudemos reproduzir Brecht sem passar pela censura.” Censura que tentou, mas nunca conseguiu atrapalhar os trabalhos do carioca. Militante confesso, Luiz Paulo Vasconcellos nunca aceitou as imposições do governo e sempre defendeu seus ideais. Foi assim na passeata dos Cem Mil, dia 26 de junho de 1968, no Rio de Janeiro, evento o qual ele ainda se orgulha de ter participado. Foi assim no movimento “arte da resistência”, que reunia intelectuais e estudantes para protestar contra as ações governamentais. Porém, o dramaturgo não esconde que contou também com a sorte para escapar das represálias. Segundo ele, nunca ninguém interferiu em seus espetáculos, muito pelo fato de grande parte de suas obras terem sido feitas em escolas de teatro, que, na época, não eram submetidas à censura. Transformando o teatro de Porto Alegre em referência Graças ao sucesso da peça “A Ópera dos Três Vinténs”, Luiz Paulo ganhou o papel de professor na CAD (Curso de Arte Dramática), colaborando para a reestruturação das artes cênicas no Estado e se tornando o grande incentivador do teatro local. Ciente do potencial cultural do sul do Brasil, ele acreditava que Porto Alegre tinha reais condições de ser a terceira força nacional, pronta para brigar de igual para igual com o eixo Rio-São Paulo. Conciliando aulas com espetáculos nos anos 1970, o carioca ajudou a encenar diversos textos de artistas da região, como “¿Quem Roubou Meu Anabela?”, de Ivo Bender, e “Boneca Teresa ou Canção de Amor e Morte de Gelsi e Valdinete”, de Carlos Carvalho. Em 1977, foi escolhido como Diretor do Instituto de Artes da UFRGS, cargo que ocuparia até 1997. Com uma carreira consolidada no Brasil, Luiz Paulo decidiu continuar estudando e viajou para os Estados Unidos. A experiência de dirigir espetáculos no âmbito acadêmico se manteve na Terra do Tio Sam, onde ele realizou duas montagens no curso de mestrado na State University of New York, com as encenações “Miss Margarida’s Way” (Apareceu a Margarida), de Roberto Athayde, em 1981; e “The Bakkhai” (As Bacantes), de Eurípides, em 1982. Em seu retorno a Porto Alegre, montou “A Alma Boa de Set-Suan”, de Bertolt Brecht, em 1986, e publicou, no ano seguinte, seu “Dicionário de Teatro”, com “um saudável toque de ineditismo”, como afirma Yan Michalski, no prefácio, por se tratar da primeira obra desse gênero escrita por um autor brasileiro. A vida continua Devido a sua importância para o teatro do Rio Grande do Sul, Luiz Paulo recebeu justa homenagem, na última edição do Porto Alegre Em Cena. Uma exposição intitulada: Luiz Paulo Vasconcellos: 50 anos de teatro, foi organizada em um shopping da cidade. Foram 39 módulos feitos a partir de belas fotografias que registraram momentos marcantes da vida profissional e pessoal do artista. A mostra incluiu, além de muitas fotos de diferentes momentos de sua carreira, cartazes de projetos cênicos variados, entre outras relíquias. Mas engana-se quem acha que, após esse reconhecimento, o dramaturgo pretende descansar. Pelo contrário. Aos 69 anos, Luiz Paulo Vasconcellos não pensa em parar e continua com o ritmo acelerado de outros tempos. Além de seguir sua carreira nos palcos, atuando no espetáculo “Platão: Dois em Um”, ele se mantém ocupado com atividades paralelas, buscando material para um futuro livro e lecionando no Teatro Escola de Porto Alegre. Luiz Paulo, que segue os ensinamentos de Pablo Picasso, acredita que tem muita lenhar para queimar. “Repito o que Picasso, então com 70 anos, disse quando lhe perguntaram qual a sua melhor fase: a próxima! Quero continuar fazendo o que eu gosto.”