0
0
0
s2smodern

Por Alysson Cardinali Neto

"O pior inimigo da paz não é a guerra, é a passividade. É claro que eu não quero a guerra, pois ela é horrível, mas eu também não quero ser passivo. Busco a paz sem passividade." Assim era Augusto Boal. Meu primeiro - e, infelizmente, único - contato com ele se deu em janeiro de 2008, quando o entrevistei sobre sua indicação ao Prêmio Nobel da Paz e sobre sua maior obra de vida: o Teatro do Oprimido, criado no final da década de 1960, em São Paulo, inspirado nas propostas do educador Paulo Freire. Durante nossa conversa, percebi tratar-se de um homem simples, simpático e sincero. Sincero no que pensava e no que dizia. Sincero, acima de tudo, nas suas convicções. Então com 77 anos - 51 deles dedicados ao teatro -, Boal não fazia pose, não ostentava seu conhecimento sobre a arte e sobre a vida. Apenas ensinava, humildemente.

 
Augusto Boal é conhecido no mundo inteiro pela criação do tetro do Oprimido

 

Era, porém, um homem ativo, combatente, de personalidade forte e que sabia bem o que falava e, principalmente, fazia. Confesso que, ao ser informado de sua morte (na madrugada do dia 2 de maio), me entristeci. Afinal, o mundo acabara de perder um símbolo na luta pela igualdade social, sinônimo de dedicação à preservação dos Direitos Humanos e referência contra toda forma de preconceito no planeta - sim, Boal era um cidadão do mundo, com seus livros traduzidos em francês, holandês e mais de 20 línguas, que levou o Teatro do Oprimido a mais de 70 países, pelos cinco continentes.

"O ser humano é teatro, pois é um espectador dos próprios atos. Quero ajudá-lo a descobrir isso. O Teatro do Oprimido é baseado em um conjunto de exercícios que ensina o ser humano, através da palavra, do som, da imagem e da ética a utilizar uma ferramenta que ele já possui e não se dá conta. O Teatro do Oprimido libera esta capacidade e ensina a pessoa como dominá-la. Afinal, todos nós somos melhores do que pensamos ser e capazes de fazer mais do que aquilo que realizamos. Somos seres expansivos", ensinou, naquela entrevista, Boal, que aplicava os preceitos do Teatro do Oprimido em educação, na pedagogia, no sistema prisional, de saúde mental, em projetos sociais, culturais e políticos, entre outros.

Preceitos, aliás, que visam - mesmo depois da partida de Boal - transformar o espectador em protagonista do espetáculo, profundamente envolvido com a trama da sua própria existência e, principalmente, com os condicionantes sócio-econômicos da sua situação. Um trabalho que se globalizou com a intenção de atuar em todos os lugares onde a arte possa libertar as amarras da consciência do ser sobre ele próprio e sobre a sua condição no mundo. Um trabalho de caráter multiplicador. Boal não escondia sua satisfação com os resultados alcançados pela forma teatral por ele criada. Detalhe: sem a ajuda de multinacionais, do governo ou quaisquer outros patrocinadores.

"É o primeiro método teatral desenvolvido no hemisfério sul e praticado pelo oprimido no mundo inteiro. Sinto uma alegria imensa de ter feito algo muito útil e que pode, por exemplo, ser aplicado desde a classe mais pobre do Piauí até em Universidades de Paris. Tudo isso justifica um trabalho tão intenso e tão mal apoiado", revelou Boal, durante o nosso encontro, sem deixar de dar uma alfinetada no que definia como "ditadura econômica no teatro".

"A classe artística, em geral, é refém do dinheiro proveniente de ‘patrocinadores' que, em vez de propagar a cultura, visam mais a obtenção de lucro. Vivemos a era da coerção pelo poder econômico, da privatização da cultura. As empresas obrigam o artista a agir da forma como elas querem, parecem esquecer que, no teatro, as pessoas trabalham com o público. Eu escolhi o público que é oprimido e que se livra da opressão. Foi uma escolha não só artística, mas ética. Sei que faço um teatro que, segundo sua estética, não é nada comercial. Mas sou feliz assim, pois o que realmente quero é mexer com o subconsciente, o inconsciente, a ignorância. Os oprimidos não sabem que sofrem. Quero dar luz a todos eles", frisou Boal, durante nosso encontro.

A arte como o melhor caminho

Boal era realmente um ser humano feliz, que fez da vida o que sempre sonhou: dedicar-se à arte, ao teatro. Nascido na Penha, Zona Norte do Rio de Janeiro, em 16 de março de 1931 (data que, em 2008, tornou-se o Dia Mundial do Teatro do Oprimido, em homenagem ao teatrólogo, dramaturgo e ensaísta), Augusto Pinto Boal inicialmente dedicou-se ao Teatro de Arena, uma das mais importantes companhias teatrais criadas no Brasil. Foi Boal que, em 1956, com a experiência adquirida durante seus estudos de direção teatral e dramaturgia em Nova Iorque (na School of Dramatics Arts, onde acompanhou as montagens do Actor's Studio, que utilizava o método de interpretação Stanislavski), incentivou a encenação de textos brasileiros, de autores como Gianfrancesco Guarnieri, e iniciou uma revolução na cena brasileira, ao abrir caminho para uma dramaturgia nacional de nomes como Oduvaldo Vianna Filho.

 

"Até o golpe de 1964, a atuação de Augusto Boal à frente do Teatro de Arena foi decisiva para forjar o perfil dos mais importantes passos que o teatro brasileiro deu na virada entre as décadas de 1950 e 1960. Uma privilegiada combinação entre profundos conhecimentos especializados e uma visão progressista da função social do teatro conferiu-lhe, nessa fase, destacada posição de liderança. Entre o golpe e a sua saída para o exílio, essa liderança transferiu-se para o campo da resistência contra o arbítrio, e foi exercida com coragem e determinação. No exílio, reciclando a sua ação para um terreno intermediário entre teatro e pedagogia, ele lançou teses e métodos que encontraram significativa receptividade pelo mundo afora, e fizeram dele o homem de teatro brasileiro mais conhecido e respeitado fora do seu país", resume o crítico Yan Michalski, um dos mais importantes do teatro brasileiro, cuja análise sobre Boal está na enciclopédia do Itaú Cultural.

 Mesmo obrigado a sair do País, durante a ditadura militar (seu exílio foi de 1971 a 1984, quando foi decretada a Anistia), Boal não deixou que uma das fases mais negras da história política do Brasil arrefecesse seu ânimo em propagar os ideais do Teatro do Oprimido. Exilado inicialmente em Lisboa, Portugal, onde trabalhou durante dois anos com o grupo A Barraca, ele, em seguida, mostrou seu talento em cidades como Paris, Buenos Aires e Nova Iorque. Após rodar o mundo e difundir seu método na América Latina e na Europa, Boal atraiu a atenção de personalidades em todo o planeta - exemplo disso foi o samba-choro "Meu caro amigo" (ver quadro), feita pelo cantor e compositor Chico Buarque, no disco "Meus caros amigos", de 1976, em forma de carta, para homenagear o amigo Boal e sua família (a mulher, Cecília, e os dois filhos do casal, Fabian e Julian). Desde então, Boal não descansou um dia sequer. Em 1996, no Rio de Janeiro, fundou o Centro de Teatro do Oprimido (CTO), situado no bairro da Lapa, um dos mais charmosos e engajados da cidade.

 Embora não tenha ganhado o prêmio Nobel da Paz - motivo de minha entrevista com ele, no ano passado - Boal recebeu vários títulos e prêmios em todo o mundo, como, por exemplo, o de diretor-revelação da Associação Paulista de Críticos de Arte (APCA), em 1956, pela montagem da peça "Ratos e Homens", de John Steinbeck, e o Officier de l'Ordre des Arts et des Lettres, outorgado pelo Ministério da Cultura e da Comunicação da França. Outro prêmio foi a medalha Pablo Picasso, atribuída pela Unesco (Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura), em 1994. Em março deste ano, Boal foi nomeado, também pela Unesco, Embaixador Mundial do Teatro. A cerimônia, realizada em Paris, contou com a presença dos membros do International Theatre Institute, do qual o Brasil é integrante.

Na ocasião, Boal fez um belo discurso, viu a apresentação de um videodocumentário sobre a atuação do Centro de Teatro do Oprimido, e uma exposição de fotos sobre alguns de seus trabalhos em vários países. Um justo reconhecimento ao talento e à grandiosidade deste brasileiro que, mesmo laureado de forma tão especial (e já com sua saúde debilitada), não desperdiçou a oportunidade de perpetuar seus ensinamentos.

"Vendo o mundo além das aparências, vemos opressores e oprimidos em todas as sociedades, etnias, gêneros, classes e castas, vemos o mundo injusto e cruel. Temos a obrigação de inventar outro mundo porque sabemos que outro mundo é possível. Mas cabe a nós construí-lo com nossas mãos entrando em cena, no palco e na vida", disse o diretor de teatro, dramaturgo e ensaísta, que, vitimado por uma parada cardíaca, em razão de leucemia, nos deixou, dia 2 de maio, quando estava internado na CTI do Hospital Samaritano, no Rio de Janeiro. Mesmo assim, as teorias de Boal sobre o teatro serão sempre estudadas nas principais escolas de teatro do mundo. Afinal, Boal deixa um legado a todos que amam a arte e os palcos e alcança a imortalidade teatral, como sugere o jornal inglês The Guardian, que publicou em uma de suas edições que "Boal reinventou o teatro político e é uma figura internacional tão importante quanto Brecht ou Stanislavski".

Se tivesse que deixar um recado aos que ficam, Boal não hesitaria em conclamar a todos para continuarem na luta pela igualdade entre os povos, independentemente de raça ou credo, e fazer da arte o caminho para uma vida eterna. "Não temos mensagens nem repostas para nada. Apenas perguntas. Queremos que as pessoas digam o que pensam, o que querem e o que podem fazer sobre os temas que são levantados nas peças teatrais. O Teatro do Oprimido é um método de descoberta do desejo e de ensaio de realização deste desejo", dizia Boal, que se definia da seguinte maneira: "Não sou um forte nem um fraco, mas me exalto por combate."

Paixão pela vida e pelo teatro

"Por sua importância para o teatro contemporâneo, no Brasil e no mundo, seu papel de expoente do Teatro de Arena, em São Paulo, e de fundador do revolucionário Teatro do Oprimido, Boal inspirou diferentes gerações, no nosso país e no exterior. Para os brasileiros e os amantes do teatro e da promoção da igualdade entre os homens, Boal deixa uma marca que jamais será esquecida, além do exemplo de um companheiro que dedicou sua vida à transformação social por meio da arte". Assim o presidente Lula, em nota oficial, expressou o sentimento de perda pela morte de Augusto Boal, um ser humano, ainda de acordo com o presidente do Brasil, que inspirou gerações e deixa a imagem "de um homem apaixonado pela vida e pelo que fazia".

Boal foi cremado, no Cemitério do Caju, um dia após a sua morte, mas sua importância será eterna, o que poderá ser comprovado nos livros que o teatrólogo, dramaturgo e ensaísta escreveu. O mais novo deles, inclusive, deverá ser lançado ainda este ano. Os originais foram entregues, pelo próprio autor, dias antes de sua morte, à editora Garamond. Trata-se de um "testamento artístico", no qual Boal sintetiza suas concepções de arte. O nome da obra será "A estética do oprimido" e conta com uma dedicatória que mostra o quão importante era a arte na vida de Boal. "Sinto sincero respeito por todos que dedicam suas vidas à sua arte (...) mas prefiro aqueles que dedicam sua arte à vida."

Boal deixou outros livros publicados: "O Teatro do Oprimido e outras politicas poéticas", "200 exercícios para ator e não-ator com vontade de dizer algo através do teatro", "Técnicas latino-americanas de teatro popular" e "Teatro Legislativo".

Teatro do Oprimido: uma arma para a paz

Criado por Augusto Boal, no fim da década de 1960, o Teatro do Oprimido cruza oceanos para ajudar quem necessita e chega até zonas de conflitos étnicos ou religiosos, como entre Palestina e Israel, ou no Sudão, onde grupos regionais aplicam as técnicas do Teatro do Oprimido para apaziguar seus sangrentos conflitos. Na Europa, em quase todos os grandes países ocidentais, da Península Ibérica ao Cáucaso, da Escandinávia ao Mar Mediterrâneo, o Teatro do Oprimido também é utilizado em questões sociais e educacionais. Já na África, o problema central tem sido o flagelo da Aids/DST e a miséria, que afetam Moçambique, Guiné-Bissau, Angola, Senegal e outros países. Na Ásia, o tema principal é a violência contra a mulher e o alcoolismo. No Paquistão, o direito dos camponeses a cultivarem suas terras; no Nepal, a busca de uma Constituição monárquico-republicana adequada às necessidades do povo. Mais do que o caminho para o aprendizado, o Teatro do Oprimido é uma "arma" contra a miséria e a opressão no mundo.

Vertentes do CTO no Brasil:

Teatro na Educação em escolas - É onde se desenvolve uma nova pesquisa, a Estética do Oprimido, restaurando as capacidades estéticas de todo ser humano de produzir teatro, música, artes plásticas, poesia e narrativas: Palavra, Imagem e Som: o Pensamento Sensível e o Pensamento Simbólico unidos na melhor compreensão do mundo.

Teatro nas prisões - Consiste na busca de se pacificar as hostilidades entre funcionários e presidiários, entre as prisões e as populações locais, através da criação de "Espaços de liberdade dentro dos muros da prisão".

Teatro na saúde mental - Busca se enquadrar os "Delírios Patológicos dentro dos quadros estruturados dos Delírios Artísticos".

Teatro do Oprimido nos pontos de cultura - É necessário que todos os seres humanos, sejam quais forem suas profissões, gêneros, etnias ou condições sociais, desenvolvam o teatro e todas as artes que trazem em si, para que se alcancem os princípios da Declaração Universal dos Direitos Humanos (que a Liberdade, a Justiça e a Paz tenham por base o reconhecimento da dignidade intrínseca e dos direitos iguais e inalienáveis de todos os membros da família humana).