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Por Michel Fernandes, Especial para o Jornal de Teatro

Há algumas edições desse Jornal de Teatro, o editor Rodrigoh Bueno registrou, em seu editorial, um justificado espanto com a conversa de alguns críticos de teatro, que estavam na mesma van que ele, em um determinado festival de teatro. Segundo Rodrigoh, tais críticos não gostaram do espetáculo que tinham visto, mas teriam de “pegar leve” em seus textos, pois o espetáculo levava a assinatura de um “figurão”.
Deprimente saber que a autocensura dos que não têm coragem para assumir suas posições frente a uma peça – por medo de desagradar a alguém cuja carreira é coroada por sucessos ou aos artistas que, em sua trajetória, compilaram um exército de amigos influentes – exista e seja mais praticada do que sonha nossa vã filosofia.
E, além dessa ideia equivocada e que atravanca a reflexão – absolutamente necessária – para os avanços estéticos de nosso teatro, há um grupo de pessoas que lidam, direta ou indiretamente com a crítica teatral, que abre concessões a espetáculos de iniciantes com a justificativa de que é preciso incentivá-los.
Em artigo de Sábato Magaldi lemos que a crítica comete muitos erros de avaliação, mas são equívocos necessários para propagar a reflexão acerca dos novos fenômenos teatrais, ponto que vai de acordo com as ideias da dramaturga Marici Salomão, de que a crítica é uma das bases da percepção, discussão e difusão de novos caminhos das artes cênicas.
Não quero com esse texto glorificar a atividade de crítico teatral, que exerço no Aplauso Brasil – www.aplasobrasil.com.br –, seria no mínimo pedante e pretensioso, mas, antes, reconhecer a responsabilidade que carregamos ao assinar nossos artigos e, por isso mesmo, nos entregarmos à dúvida, ao questionamento constante. Em lugar do autoritário “isso pode” e “isso não pode”, reconhecer que o teatro é território livre, em que quaisquer experimentações são possíveis e que, concordando ou discordando do fenômeno teatral que se critica, é necessário o embasamento teórico e de experiências, vividas ou apreendidas em leituras, para se tecer o texto que, aliás, nada deseja ser definitivo, mas, tão-somente, uma alavanca para a discussão sobre tal fenômeno, já que segundo diz o diretor inglês Peter Brook “o verdadeiro bom teatro só tem inicio ao cair do pano”.
É preciso refletir, sobretudo, “o que é?” e “para quem é dirigida?” a crítica teatral. É preciso diferenciar a crítica teatral dos materiais de divulgação de um espetáculo.

Primeiros Passos
para uma boa crítica
Ninguém duvida que a primeira característica exigida a autores de quaisquer editorias dos jornais e revistas, impressos (as) e eletrônicos (as), é que se escreva com clareza. Essa exigência tão importante ao repórter, cuja função é desembaraçar os fatos do cotidiano para seu público leitor, é apontada por Sábato Magaldi em artigo como condição primordial para que um texto crítico obtenha seu objetivo primeiro que é estabelecer a comunicação entre quem escreve e quem lê. Ele acrescenta que o crítico “julgue com extrema honestidade e sem preconceitos de gênero”. Magaldi diz também que “a primeira função da crítica é detectar a proposta do espetáculo, esclarecendo-a, se preciso, pelo veículo da comunicação. Em seguida, cabe-lhe julgar a qualidade da oferta e da transmissão ao público”.
Para realizar o que chama de “julgamento” ele evidencia a necessidade de o crítico assegurar seu conhecimento sobre o objeto que vai propor a reflexão crítica – o espetáculo teatral. E, para a aquisição de tal saber, cabe ao crítico, além de sólida formação em cultura geral, a frequente leitura sobre a estética teatral, seus diversos estágios diante da história teatral, estudos sobre os mestres – como Artaud, Meierhold, Craig, Bob Wilson, Stanislavski, Brecht e Piscator, entre tantos outros –, conhecimentos sobre a dramaturgia de Sófocles a Shakespeare, de Brecht a Dea Loher, de Padre Anchieta a Nelson Rodrigues, de Maria Adelaide Amaral a Juca de Oliveira, do texto coletivo ao processo colaborativo. Enfim, ser crítico é não ter medo de estudar e reconhecer que o saber jamais se esgota.

A Crítica em Pesquisa
Desenvolvo uma pesquisa, Antunes Filho e José Celso Martinez Corrêa: Apolo e Dionísio do teatro sob a perspectiva das críticas e outros textos de Mariângela Alves de Lima, para o Arquivo Multimeios do Centro Cultural São Paulo (CCSP). Em primeiro lugar, tal estudo me colocou dentro de uma fortuna de escritos teóricos que propõe reflexões a respeito do fazer do texto crítico, de suas possíveis atribuições e contribuições para o campo do saber teatral. Tal perspectiva me comprova a seriedade, a responsabilidade e o constante dever de estudar, conhecer, enfim, para não ser nem leviano nem permissivo quando tratamos de assunto tão sério como o é para mim o teatro.
Em um segundo momento da minha pesquisa, realizo entrevistas com Mariângela Alves de Lima, há mais de 30 anos crítica teatral de “O Estado de São Paulo”, e, nesses diálogos, conversamos a respeito das ideias dela sobre as teorias que levantei pela pesquisa bibliográfica. A partir disso, chego mais perto da forma como ela se aproxima de um espetáculo teatral, de que maneira ela lida com o fazer da crítica teatral e suas ideias a respeito da finalidade de suas críticas.
Assim como Sábato Magaldi, de quem foi aluna na graduação em crítica teatral na Escola de Comunicações e Artes da USP, acha que a condição sine qua non de um texto crítico deve ser sua clareza para o estabelecimento da comunicação entre autor e leitor. E defende a posição de que, para o artista, a crítica interfere muito pouco, “a crítica teatral não faz com que nenhum gênio do teatro desperte, ou seja, a reflexão crítica não dá ao artista as respostas estéticas para a excelência ou não de seu trabalho”. Em um encontro realizado com alunos do curso de Crítica Teatral, ministrado por Silvia Fernandes e Luiz Fernando Ramos, ela acrescentou o medo que tem de que suas críticas “policiem” o trabalho dos artistas.
Mariângela traz em sua vivência o terror do cerceamento da livre expressão, devido à ditadura militar, e, sendo assim, compreende-se seu pavor ao “policiamento” dos artistas a partir de críticas que apontem os aspectos favoráveis e desfavoráveis de tal e tal espetáculo, mas acredito – talvez ainda esteja vivendo numa utopia! – que é possível o diálogo entre o crítico e o objeto de sua crítica não como bula que direcione o trabalho posterior do artista, mas como material que lhe sirva para saber como se dá uma leitura do trabalho dele por um indivíduo fora do mesmo, nem que para discordar e deletar essa outra perspectiva.
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Atleta da Emoção - Ricardo Blat

Ricardo Blat queria ser aeronauta, mas percebeu que gostava mesmo era de ser o personagem. Como ator, não deixa de transgredir

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Por Michel Fernandes, especial para o Jornal de Teatro*

Retomo o que o ator e dançarino Edu O. (Judite Quer Chorar, Mas Não Consegue) disse na mesa de debate do FILO 2009 (em meu primeiro artigo para esse jornal escrevi, detalhadamente, a esse respeito) de que “a dança foi o ambiente artístico que melhor recebeu o artista” cuja expressão artística ocorre de forma diversa da habitualmente conhecida. Outros corpos, outras qualidades de movimento, exigem novas descobertas dos profissionais da dança envolvidos nesse tipo de trabalho. Esse é um dos fundamentos da CandoCo desde seu inicio, segundo afirmou Celeste Denkeder, uma das fundadoras da companhia inglesa – que surgiu no cenário artístico  em 1991 – a Henrique Amoedo, realizador da dissertação de mestrado Dança Inclusiva em Contexto Artístico – Análise de Duas Companhias, defendida, em 2002, na Faculdade de Motricidade Humana, em Lisboa, Portugal. E, segundo nos afirma Stine Nilsen, uma das atuais diretoras artísticas da CandoCo Dance Company, no início dos trabalhos em uma nova coreografia há uma “observação em cada movimento dos bailarinos (deficientes e não deficientes). Nós procuramos usar seus vocabulários de movimentos no caminho mais interessante e criativo”.
A companhia inglesa vem a São Paulo, no início de outubro, para workshop, Jam Session e apresentação de seus dois novos trabalhos: The Perfect Human, coreografia de Hofesh Sherchter, e Still, de Nigel Charnok. A preocupação pedagógica é uma das características dominantes da CandoCo, desde seus primórdios, o que é uma louvável forma de expandir um movimento artístico engajado na celebração das diferenças. É preciso que se aplauda a iniciativa pública e privada – ProAC (Programa de Ação Cultural) da Secretaria Estadual da Cultura de São Paulo e Nestlé, que  notou a dificuldade de interação entre deficientes e não deficientes na hora de recrutar funcionários – que possibilitam a vinda de tão instigante trabalho, com direito à tradução em libras, para a compreensão dos deficientes auditivos, e áudio-descrição, para os deficientes visuais, assim como se dá o trabalho apresentado pelo grupo carioca Os Sisos e Inclusos, coordenado pela jornalista e empreendedora cultural Cláudia Werneck (também citada no artigo sobre o debate no FILO 2009).
Quero deixar bem claro aqui, já que também sou cadeirante, ou seja, me locomovo por meio de cadeira de rodas, que não pretendo envergar o assunto para o viés assistencialista – que repudio – e não quero falar de bailarinos que, “apesar de” deficientes, têm boa vontade e dançam, mas de artistas que simplesmente buscam novas formas de expressão corporal, utilizando e descobrindo suas potencialidades de movimento.

Novas formas
de expressão
Stine Nielsen aponta um interessante dado: “Muitos bailarinos querem o desafio de descobrir novas formas de movimentar-se, buscando diferentes vivências com bailarinos e coreógrafos experientes e a CandoCo oferece isso para profissionais com ou sem deficiência”. Fica claro, então, que é secundária a questão de “quem” está dançando e que o foco é aceso à “forma” dessa dança, à busca pelos movimentos, o que é fator comum entre todos os artistas dedicados à dança contemporânea. O que, à primeira vista, pode parecer obstáculo, mostra-se impulso à descoberta de diferentes qualidades de movimento. “Se eles (os bailarinos) tiverem talento, a excitação a cada descoberta dessa maneira nova de dançar terá um poder muito bom”, completa Nielsen.

O humano perfeito
da CandoCo
Uma das coreografias que a CandoCo apresentará em seu programa – que será apresentado nos dias 8 e 9 de outubro, no Teatro Alfa, e no dia 9, no mesmo local, com entrada franca apenas para ONGs e instituições para pessoas com deficiência – chama-se The Perfect Human, coreografada por Hefesh Shechter, bailarino que trabalhou na israelense Batsheva Dance Company, sob direção artística de Ohad Naharin, que deseja provocar o questionamento de nossa busca pela perfeição.
Entretanto, conta Stine Nielsen, que o tema emergiu “durante o trabalho com os bailarinos, não havia uma pré-determinação” e, também afirmou que quando convidam um coreógrafo para trabalhar com o grupo – sistema adotado desde sempre pela companhia – não fazem “escolha prévia de um determinado tema.

Rudolf Laban e CandoCo
Um elemento que me chamou a atenção enquanto pesquisava para enviar as perguntas que, a princípio, foram endereçadas a Pedro Machado, o outro diretor-artístico da companhia, foi a percepção que grande parte da formação dos diretores da companhia está conectada ao centro de estudos em que as técnicas de Rudolf Laban são o cerne das pesquisas corporais.
Contudo, Stine Nielsen diz que a formação nas técnicas de Laban não é exigida para a entrada de bailarinos na companhia, embora sejam utilizadas algumas das técnicas labanianas na análise dos movimentos. “O foco na técnica de Laban é na descrição dos movimentos. Pensamos em elementos como corpo, espaço e dinâmica de movimentos”.
Mas para fazer parte da CandoCo é preciso ser profissional com, pelo menos, dois anos de atividade. O primeiro passo você poderá dar durante o workshop da companhia, gratuito, no Centro Cultural São Paulo, nos dias 3 e 4 de outubro. E o porvir... Ah, esse é mistério. 
*Michel Fernandes é jornalista cultural, crítico, pesquisador de teatro e editor do www.aplausobrasil.com.br

SERVIÇO

Dias 3 e 4 de outubro - Workshops
Centro Cultural São Paulo - CCSP
Gratuito - mediante inscrição prévia por email
Inscrições: de 15 a 29 de setembro, mediante envio de carta de interesse e currículo para o email Este endereço de email está sendo protegido de spambots. Você precisa do JavaScript ativado para vê-lo.
Horário: sábado e domingo, das 10h30 às 13h30 – Sala de Ensaios 1

Dia 6 de outubro - EI! Encontro de Improvisação
Centro Cultural São Paulo - CCSP
Aberto ao público
Horário: Terça-feira, das 12h às 13h30 – Sala Adoniran Barbosa
Dias 7 e 8 de outubro - Apresentações para o público
Teatro Alfa
Horário: 21h
Ingressos: R$ 30 e R$ 60 com venda de meia entrada.
Classificação etária: 16 anos

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A voz do oprimido
Em conferência internacional, praticantes do Teatro do Oprimido reuniram-se no Rio de Janeiro

Por Douglas de Barros

Brasileiros, senegaleses, angolanos, franceses, canadenses... Todos reunidos na Cidade Maravilhosa para a Conferência Internacional do Teatro do Oprimido, estilo criado pelo teatrólogo Augusto Boal nos anos 1960 e que ficou conhecido no mundo inteiro após o exílio de seu criador durante a ditadura militar no Brasil. Entre os dias 20 e 26 de julho, 52 representantes de 25 países dos cinco continentes, mais representantes de 16 estados brasileiros participaram do evento que ocupou três espaços no Centro do Rio: Caixa Cultural RJ (Teatro Nelson Rodrigues e Teatro de Arena) e Centro de Teatro do Oprimido - CTO. O ator Silvano dos Santos conheceu o Teatro do Oprimido, em 2004, através de uma palestra ministrada por Augusto Boal, e veio de Guiné-Bissau só para participar da conferência. “Foi muito positivo ver pessoas de tantos países dispostos a discutir um mesmo tema e com o mesmo ideal que é o de dar voz ao oprimido”, conta Silvano.

A voz do oprimido
Festa de abertura
A cerimônia de Abertura, com entrada franca, contou com a participação de Rosa Maria Marques, da Universidade de Porto Rico, Célio Turino, do programa Cultura Viva do Ministério da Cultura e da socióloga Bárbara Santos, do CTO. Logo de início, a professora Rosa Maria, que acompanhou Augusto Boal durante muitos anos, relembrou a trajetória do Teatro do Oprimido no Brasil e no mundo. Em seguida, o secretário Célio Turino falou sobre a implementação e a realidade dos pontos de cultura, projeto idealizado pelo CTO em parceria com o Governo Federal, desde 2006, e que organiza 18 centros culturais em tribos indígenas, favelas, quilombos e assentamentos entre outras regiões marginalizadas.
    Os caminhos da Estética do Oprimido, última pesquisa de Augusto Boal, foi o tema da palestra de Bárbara Santos. Idealizadora da conferência, a socióloga falou sobre as diversas maneiras que cada comunidade tem de interpretar e entender o mundo à sua volta. “O oprimido está convencido de que é oprimido, no pior sentido da palavra. Está convencido do que é bom, do que é ruim, do que seria desejável, do que é moda, do que é música, através dos seus meios sensíveis, especialmente a grande mídia, que nos ataca pelo som, pela imagem e pela palavra”, afirma Bárbara.
Ainda de acordo com a ativista, a técnica que representa procura resgatar no oprimido o desejo e a capacidade de transformar o mundo à sua volta. “A gente perde o domínio da palavra, do som e da imagem, como se isso não tivesse mais nada a ver com a gente, como se a gente fosse apenas um consumidor no mundo. Então a gente faz nosso trabalho no sentido de mostrar que nada do que é criado é eterno, pode ser recriado”, explica.
Como ponto alto do primeiro dia de atividades, um coral, formado por representantes do Teatro do Oprimido de várias partes do mundo, se emocionou e sensibilizou a plateia do Teatro Nelson Rodrigues ao cantar a música “Canto Augusto”, composta por Nino Arcanjo, em homenagem ao último aniversário de Boal, no dia 16 de março de 2009. Após a solenidade, o público conferiu uma exposição com trabalhos feitos a partir da reciclagem do lixo. Os trabalhos também foram produzidos por integrantes dos pontos de cultura.


Painéis de discussão
A programação incluiu, também, mostras de espetáculos e de vídeos, encontro de praticantes, exposição, sarau e debates sobre o impacto do TO em diferentes áreas temáticas. O evento proporcionou encontros interessantes como o do palestino Edward Muallem com o ex-militar israelense Chen Alon, da organização Combatentes Pela Paz. Os dois usam o Teatro do Oprimido para despertar consciências para a violência cometida contra o povo palestino. Outro diálogo relevante aconteceu entre militantes do MST e o indiano Sanjoy Ganguly, que dirige há 20 anos a mais antiga rede de TO da Ásia, Anna Sanscrit, com 25 grupos e mil atores, com público regular de um milhão de pessoas.
  O sociólogo Geo Britto, curinga do CTO, afirma que, no Brasil, há uma resistência muito grande das universidades, fato que não ocorre em outros países. “Se você for a qualquer lugar do mundo, qualquer universidade fala sobre Augusto Boal. Em agosto vamos receber um grupo da Universidade de Nova Iorque. Já é o quarto ano seguido que eles vêm pra cá. Ficam uma semana, quinze dias com a gente. Veio o pessoal de Porto Rico, da TV Vive, da Venezuela, do Uruguai, do Chile. Mas aqui no Brasil dizem que Teatro do Oprimido não é teatro”, lamenta Britto.
Os painéis contaram, ainda, com nomes como o norte-americano Doug Paterson, da Universidade de Nebraska, o moçambicano Alvim Cossa, que espalhou a técnica por todo o país e que agora se tornou estratégia nacional na luta contra a Aids; o sudanês Justin Billy, que atua com TO em zonas de conflito; os palestinos Iman Aoun e Edward Muallen, integrantes do Grupo Asthar, que há dez anos faz teatro nos territórios palestinos ocupados; e o alemão Till Baumann, que trabalha em presídios com jovens oriundos de áreas extremamente marcadas pela presença neo-nazista. Para mais informações acesse: www.ctorio.org.br ou ligue para: (21) 2232-5826 / 2215-0503.

 

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